Salomão Rovedo: Um conto, uma história

Literatura & Arte

Um gato chamado NÃO

Le chat noir (Paris)Quando tinha três anos de idade Nininha ganhou um gato. Na verdade não ganhou: seus pais iam doá-lo para a Sociedade Protetora dos Animais, porque não podiam ter o bichano em casa. Quando soube disso Nininha gritou:

– Não!

Ao ouvir o grito o gatinho correu e com um salto ágil se aninhou no colo dela. Ele levantou os olhos agradecidos e sacudiu a cauda para mostrar a ela sua alegria. Assim, o gato não foi doado e ao mesmo tempo ganhou o nome: NÃO.

NÃO chegou da rua sujo e Nininha tinha ouvido dizer que gatos odeiam banho. Mas assim que chegou a hora dela tomar o banho diário NÃO correu para o banheiro. Assim Nininha descobriu que NÃO adorava tomar banho. Em tempo de calor, NÃO se enfiava debaixo das torneiras, dentro do tanque e até no vaso sanitário, o que foi impedido.

Na primeira noite que NÃO foi dormir em seu acolchoado, Nininha deixou a luz acesa. E também cobriu NÃO com uma manta vermelha, para que ele não sentisse frio. No dia seguinte encontrou a luz apagada e a manta caída no chão. Ela não sabia que gato enxerga no escuro: tem visão noturna que vê dez vezes melhor do que ela mesma. E que duas camadas de pêlo protegem os gatos das noites frias…

Nininha ouviu dizer que gato preto dá azar. NÃO é um gato preto, mas na internet ela descobriu que isso é pura lenda. Foi na Idade Média, época da Inquisição, que surgiu o mito de que cruzar com um gato preto na calçada dá azar. Em outros lugares, porém, isso é sinal de muita sorte. Então, Nininha ficou feliz, porque até agora NÃO só tinha trazido sorte para ela.

No veterinário, Nininha quis saber como ensinar NÃO a fazer certas coisas. Sabe-se, porém, que os gatos não podem ser ensinados, mas Nininha nunca acreditou nessa história. Teimosa, ela foi à internet saber como ensinar NÃO a fazer o que ela queria. Descobriu que na Rússia tem um Teatro dos Gatos, com mais de 120 artistas – todos são gatos! Eles fazem acrobacia na corda bamba, equilibram bolas no nariz, dão saltos mortais e agradecem à plateia.

Nininha vai fazer de tudo para transformar NÃO num artista de circo…

– É verdade que os gatos são apegados à casa e não aos donos? Nininha perguntou a seu pai. – É verdade, respondeu ele, os gatos têm um senso territorial muito acentuado. Mas, atenção! Ele também sabe, pelo cheiro, quem trata bem e quem lhe faz brincadeiras maldosas. Muito cuidado com as unhas afiadas dos gatos!

NÃO sofreu muitos acidentes e todos acreditavam que ele tinha sete vidas. Por exemplo: NÃO sempre caía de pé depois das travessuras. Esse é outro mito que foi desfeito com um acidente: certa vez NÃO se machucou seriamente.  A queda foi de grande altura e lá se foi ele de novo ao veterinário. Depois de um mês, a pata traseira enfaixada, muitos gemidos e algumas injeções NÃO ficou bom de novo.

E foi assim que NÃO e Nininha conviveram juntos por quinze anos. Já moça e bonita, Nininha arrumou namorado, foi estudar na faculdade e só encontrava NÃO uma vez ou outra. Ele nunca teve namorada porque foi castrado, agora estava ficando velho e como todos os gatos idosos ficava quieto, preguiçoso – só comia ração forte, mas não tinha como gastar as calorias. Era um gato obeso…

Aos dezoito anos, quando chegava da faculdade, Nininha soube dos pais que NÃO voltou do veterinário com a notícia de que estava morrendo de velhice. A casa estava triste: NÃO estava no acolchoado inerte. Assim que a viu, ele levantou os olhos e, sem forças, mal conseguiu sacudir a cauda para mostrar a Nininha toda sua alegria e reconhecimento. Mas no íntimo queria mesmo era dar saltos alegres e se aninhar no colo dela. Como naquele primeiro dia.

(Imagem: Le chat noir – Paris)

Rio de Janeiro, Cachambi, 31 de outubro de 2017.

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O mal que JK nos causou

JK

(Publicado no ano de 2006 em: http://www.aconfraria.com.br)

O que pensou JK quando ousou assumir, como questão de vida ou morte, a mudança da Capital Federal para o planalto? É claro que nenhum mal lhe passou pela cabeça. O projeto era antigo, com raízes no Segundo Reinado, mas seja qual for o hálito histórico que ambientou todo o processo – hoje completamente documentado – a consequência refletiu na política brasileira como uma bordoada mal dada, cujo nocauteado foi o povo, o eleitor, o contribuinte. O que hoje nos aflige e nos derrota é o distanciamento físico entre o político e seu povo.

Acabou o corpo-a-corpo, a vaca das reivindicações foi para o brejo com corda e tudo, a pressão popular – cujas raízes remontam à Revolução Francesa – esvaiu-se. Quando se quiseram reunir milhões de pessoas para clamar pela restauração da democracia, a responsabilidade caiu sobre o Rio de Janeiro e São Paulo. Lula como líder sindical no planalto seria uma tragédia satélite, uma piada sem quintal.

O distanciamento da sede política das grandes metrópoles implantou e trouxe consigo a pior de todas as tragédias políticas ao gerar e fazer nascer uma teocracia até então inimaginável: a democracia ditatorial. Aquilo que parece mais não é: a perpetuação de uma ordem política na qual a ética e a estética são descartadas de revés.

Na antiga capital federal, o Rio de Janeiro, o Senado ficava bem ali nos costados da Cinelândia, um reduto de tradição rebelde e revolucionário, onde até mesmo as reivindicações de ordem homossexual derrubaram convenções. Era o ponto do teatro, do cinema, das boates e, portanto das bichas recém assumidas. Qualquer movimento errado das autoridades, qualquer passo em falso, qualquer escândalo mesmo menor, logo provocava a reunião do populacho disposto a redirecionar os transviados.

A Câmara dos Deputados – onde o próprio JK tomou posse como Presidente da República – ficava na Praça 15 de novembro, ao lado ao Paço Imperial que já era, desde o tempo do Império, palco que refletia a efervescência social e política da época. A república chegou e permaneceu sujeita aos mesmos tremores, as reuniões que pautassem assuntos de mérito raramente ocorriam no silêncio pacífico dos gabinetes. O alarido lá fora ecoava em cada ouvido como a lembrar de que o eleitor estava atento ao deslize de seus mandatários.

Os estudantes tinham uma atuação política mais fecunda e conviviam no entorno do poder. A UNE era ali na Praia do Flamengo a quinze minutos do centro; a Faculdade de Direito, na Praça da República, mantinha o Largo do CACO (Centro Acadêmico Cândido de Oliveira), em perene ebulição; a Faculdade de Filosofia, na Praça Itália, fazia vizinhança ao Restaurante Central dos Estudantes, o famoso Calabouço (Sede da UME), fundindo estudantes secundários e universitários num só elemento. O Ministério da Guerra, que nunca foi um órgão popular, tinha de conviver com a grande massa de trabalhadores que utilizavam todos os dias os trens da Central do Brasil e passava pela calçada do quartel rumo ao trabalho.

Foi quando JK tomou coragem para se antecipar à história estava escrevendo sua própria história. No entanto em tudo que ocorreu entre a ideia, o projeto, a implantação, a inauguração e a transferência dos poderes para o planalto central, em nada transpirava a intenção de destravar o político do povo, o mandatário do voto, a promessa da cobrança. O papel de vilão sobraria para os prefeitos e vereadores, se já não viesse do alto a desmoralização das gestões, carregando de impotência desmoralizadora qualquer sentimento de reação. Terceirizou-se o poder.

A Câmara dos Deputados, o Senado, o Poder Judiciário, estabelecidos numa praça que não é a Praça 15 de novembro, ao lado ao Paço Imperial – o Palácio da Alvorada – deixou de ser o palco capaz de refletir a efervescência social e política, necessários ao debate das questões importantes. Não há mais o debate entre o político e o povo, a população não tem como se pronunciar, Brasília enterrou o plebiscito, a passeata, como a TV enterraria o comício.

O isolamento do poder numa redoma protetora fez com que aumentasse a sensação de impunidade, fazendo crescer demasiado o rebanho das ovelhas negras. Quem tiver mérito e paciência pode se dar ao trabalho de fazer a estatística que, no entanto, está bem latente: a nova capital promoveu também os casos de corrupção mais escabrosos, que passaram a ter uma magnitude inconcebível, alçando-se a cifras imagináveis, num país que todos os hóspedes do Palácio da Alvorada consideram pobre.

A república que chegou depois da ditadura permaneceu sujeita aos mesmos tremores. As reuniões que pautam assuntos de mérito agora ocorrem no silêncio pacífico dos gabinetes atapetados. O alarido ficou lá fora, bem longe, não mais ecoa nos ouvidos dos políticos a lembrança de que o eleitor é o responsável direto pelos mandatos e mantém o direito de cobrança. O poder hoje se exerce acobertado pelos ternos e jaquetões impecáveis, etiquetados pelos melhores estilistas italianos. A construção de Brasília acabou com a cobrança direta, nenhum presidente se suicidará no Palácio da Alvorada.

A construção de Brasília de fato colocou o nome de JK num patamar elevado da história, levou nome do Brasil ao cume da modernidade, não só pela joia arquitetônica que a cidade representa, mas também pela audácia e coragem em transformar um empreendimento árduo e utópico em realidade. Essa aura de modernidade, porém, não impregnou o espírito ético dos políticos, transformando o ideal numa mácula e o exercício da democracia em tragédia nacional. Alguém duvida?

O 5º Evangelho ou Quem foi Han Ryner?

Han Ryner

Pego um livro velho cuja leitura foi esquecida pela metade. É “O quinto evangelho” de Han Ryner. Mas quem é Han Ryner que nem consta da Enciclopédia Larousse? A própria orelha do livro esclarece: “Han Ryner, poeta, romancista, crítico e ensaísta, nasceu em Némours (França), em 7 de dezembro de 1861 e faleceu em Paris, em 8 de janeiro de 1938. Foi professor de história e de filosofia no Liceu Louis-le-Grand e no Colégio Charlemagne, na capital francesa.

“Deixou cerca de setenta livros, entre os quais os seguintes, considerados como obras-primas: “As viagens de Psicodoro”, “Parábolas Cínicas”, “O Pai Diógenes”, “Os Pacíficos”, “A Torre dos Povos”, “A Sabedoria Sorridente”, “A Vida Eterna”, “Os Verdadeiros Diálogos de Sócrates”, “O Engenhoso Fidalgo Miguel de Cervantes”, “O Amor Plural”, “Tomai-me todas!”, “Pequeno Manual do Individualista” e o “Quinto Evangelho”, a primeira obra de Han Ryner que se publica em português. “Em 1912, já famoso, foi aclamado, em Paris, Príncipe dos Narradores Filosóficos, num plebiscito entre os escritores da França promovido por Romain Rolland e J. H. Rosny, pai, presidente da Academia Goncourt”.

Jota Cristo sempre atraiu e atrairá ainda muitos autores para deliberar sobre sua vida e seu legado. Aliás, é hoje mais forte e mais revolucionário o legado que Cristo que sua própria existência. Mesmo assim a sua vida tem sido objeto de muitas biografias e pseudo-biografias queimado a pestana e a vida literária de muito peso pesado do pensamento cultural. Filósofos, historiadores, romancistas, dramaturgos, poetas – cristãos, ateus, reformistas – ninguém, ninguém escapou das garras da vida e pensamento de Cristo, que chegou até nós através de histórias contadas em evangelhos capengas.

Portanto, é provável que a leitura desse livro – que ficou pela metade – se tenha dado à época em que me interessei em conhecer os evangelhos, na ambição de solucionar as dificuldades históricas da vida de Jesus Cristo. Tendo lido os evangelhos, bíblicos e apócrifos – mais uma dezena de outros textos e autores inclusive “Cristo, esse desconhecido”, de Ernesto Bono, esse “O Quinto Evangelho” viria me iludir e me complicar ainda mais a respeito do tema, o que resultou no conto “O Evangelho Segundo”, que cometi faz tempo.

Talvez também tenha me atraído a leitura de “O Quinto Evangelho”, de Han Ryner, o fato de que compartilhamos a mesma ideia de que Jesus Cristo não morreu na crucificação – e, portanto, também não ressuscitou. Conforme está explicitado nos últimos capítulos do livro (22, 23 e 24), dos quais reproduzo um excerto.

“Felizes os que são perseguidos por serem justos, pois a Terra levanta-se contra eles e o Céu une-se à Terra! Mas eles miram para dentro de si e conhecem o único reino onde pode reinar a justiça!

“Ditosos os que são pobres, sem atormentar-se com as riquezas próximas ou distantes, pessoais ou comuns; os que não desejam consolação externa, os que são in­dulgentes, justos, misericordiosos, puros e pacíficos! Pois o mundo persegui-los-á e Deus abandoná-los-á. Mas eles não temerão nem a Deus nem aos homens e encerrar-se-ão em si próprios como numa fortaleza inexpugnável”.

“E viverão e morrerão no reino das riquezas, que os vermes jamais corrompem e onde os ladrões nunca roubam: no reino da verdadeira luz, da verdadeira ale­gria, da única bondade, da única justiça e da paz úni­ca! E perdoarão à Terra e ao Céu, que não sabem o que fazem!”

Ao chegar a hora nona, Jesus sentiu-se desfalecer. Julgou que ia dormir para sempre, e sua cabeça incli­nou-se sare o ombro. O centurião que comandava os soldados ficou mara­vilhado com a nova beleza que transfigurara o rosto do crucificado. E disse aos que ali se encontravam: “Pela primeira vez houve felicidade neste lugar!” Mas o próprio centurião admirou-se do que dissera, como se tivesse ouvido palavras alheias. E não as compreendeu, pois achava-se como um ébrio que, di­zendo a verdade, não sabe o que diz.

E como já era tarde e era dia da preparação da Páscoa, isto é, véspera do sábado, José de Arimatéia, que era um ancião nobre e justo e um amigo secreto de Jesus, encorajou-se e foi avis­tar-se com Pilatos, a quem pediu o corpo do mártir. Pilatos admirou-se de ter Jesus morrido já, e, cha­mando à sua presença o centurião, perguntou-lhe se isto era verdade.

O centurião respondeu: “Jesus era um homem dé­bil como um menino, estava quase morto à hora sexta, quando o crucificámos, e morreu por volta da hora nona!” Pilatos então deu o corpo de Jesus a José. E, fican­do sozinho, disse consigo próprio: “Se este justo es­tiver vivo ainda, isto me alegrará. Pois o terei salvo sem correr risco algum!”

José de Arimatéia, depois de comprar um sudário, regressou depressa com Nicodemos. E desceram o cor­po da cruz, envolveram-no no sudário e colocaram-no nas proximidades, num sepulcro novo talhado na rocha. E Maria Madalena, e Joana, esposa de Chuza, e Maria, mãe de José, viram onde o colocavam e se re­tiraram. Quando José de Arimatéia e Nicodemos ficaram sozinhos no sepulcro, disse o primeiro: “Não pude trazer substâncias aromáticas. Mas voltaremos para ungi-lo no dia seguinte ao sábado, bem de madrugada”.

Nicodemos acrescentou: “Eu tampouco trouxe substâncias aromáticas. Mas trouxe remédios e po­ções calmantes. Pois são necessários três ou mais dias para se morrer na cruz e ele só esteve nela escasso nú­mero de horas!”

José de Arimatéia pôs-se a tremer. E disse: “Cala-te Nicodemos. Não me concedas esperanças vãs!” E, aproximando-se do corpo, acrescentou: “Tenho medo de esperar!”

Mas Nicodemos replicou: “Vê como se lhe ergue o peito. Repara no vibrar de suas pálpebras, como se quisessem abrir-se-lhes os olhos!”

José, pondo-lhe a destra sobre o coração, que ba­tia fortemente, disse: “É muito comum aos que velam os mortos terem a ilusão de vê-los moverem-se!”

Mas Nicodemos, já sentado, havia posto sobre os joelhos o corpo de Jesus. E de repente exclamou, como alguém que quer expressar sua alegria, mas sabe que não deve gritar: “Está vivo!”

E ambos se dispuseram a cuidar dele. E Jesus mur­murou, como se despertasse de um sonho: “Estava tão feliz! Os homens eram felizes e a sua felicidade era obra minha. Porventura não passou tudo isto de um sonho?” Mas José de Arimatéia disse-lhe: “Não fales, Mestre. Não te fatigues! Pois acabas de surgir penosa­mente das sombras da morte!” E quando, depois de lhe haverem dispensado os pri­meiros tratamentos no sepulcro, a noite se tornou mais escura, transportaram Jesus para casa de Nico­demos.

No sábado pela manhã José de Arimatéia foi pro­curar os essênios, que em número superior a quatro mil habitavam nas proximidades do Mar Morto, os quais amavam a Jesus, porque este praticava e divulgava preceitos iguais aos deles, e porque as pará­bolas de Jesus eram como as deles, vestidas de branco. José contou-lhes todo o ocorrido em Jerusalém e que Jesus estava ainda vivo, mas que não podia con­tinuar em Jerusalém, pelo perigo de cair de novo nas mãos dos seus inimigos.

Alguns essênios partiram com José de Arimatéia. E, na madrugada seguinte ao sábado, transportaram Jesus para o meio deles. Mas Jesus quis que comunicassem a seus discípulos que ele não havia morrido. De modo que dois essênios foram ao sepulcro, re­tiraram a pedra que José de Arimatéia e Nicodemos ali haviam colocado para fechar a entrada e impedir que alguém o visse vazio.

E ficaram sentados à beira do sepulcro, a ver o que ocorria e para transmitirem aos que primeiro ali chegassem o recado que Jesus lhes confiara. E na manhã seguinte, que era a primeira da sema­na, vieram Maria Madalena, Joana, mulher de Chuza, e Maria, mãe de José, trazendo bálsamos e perfumes. E vendo levantada a pedra do sepulcro entraram admiradas e com o coração cheio de temor.

E não acharam o corpo de Jesus, mas sim dois ho­mens cujos vestidos eram tão brancos como a neve. E o espanto se apoderou delas e abaixaram o rosto para a terra. Mas eles lhes disseram: “Porque pro­curais entre os mortos o que está entre os vivos? Ele saiu da tumba. E disse: “Que os meus amigos voltem à Galileia, onde me encontrarão. Pois não posso entrar em Jerusalém, onde meus inimigos de novo me prenderiam!” E, saindo do sepulcro, elas contaram aos onze todas essas coisas. Mas eles não acreditaram no que elas lhes diziam, pois parecia-lhes um sonho.

Todavia, Pedro levantou-se e correu ao sepulcro, e, inclinando-se para olhar, nada mais viu além do su­dário que jazia por terra. E retirou-se logo, admira­do com o sucedido. E disse aos demais: “Bem sabia que seu Pai viria em sua ajuda e que ele sairia da tumba. Pois ele é o Cristo e, para dar-nos prova disto, preferiu triunfar da morte a triunfar dos homens”.

E quis que seus inimigos o julgassem encerrado no sepulcro, para surpreendê-los em sua confiança e no seu orgulho. E para fazê-los cair de mais alto na vergonha e na morte.

****************

Interessante sob todos os aspectos esse “O Quinto Evangelho”, de Han Ryner, um estranho autor que perpassou por letras brasileiras e jamais se ouviu falar.

Por fim, uma curiosidade: a última página do livro guarda detalhes técnicos da edição em que se verá a forma antiga e humana de publicar livros que não mais existe, enterrada por sistemas eletrônicos, compostos de máquinas ultramodernas que fazem tudo de uma só vez em gestação de minutos e acaba por parir o livro já pronto para uso. É o que diz lá:

“O Quinto Evangelho” se acabou de compor e imprimir nas oficinas da Empresa Gráfica Carioca S.A. (Rua Brigadeiro Galvão, 225-235, S. Paulo), para a Livraria Editora Germinal (Av. 13 de Maio, 23, s. 922, tel. 52-1001, Rio de Janeiro), em 31 de agosto de 1961. Foi composto por Alcides Rodrigues Silva, paginado por Vicente Boccia, impresso por José Marques de Azevedo e Ramiro J. Balbino, dobrado por Agenor Dias Paraíba, costurado por David Luciano e refilado por Aldair M. Oliveira.

Honra e glória, pois, aos antigos operários da indústria gráfica que deixavam a digital impressa no papel, nas dobraduras, costuras e davam alma aos livros.

Rio de Janeiro, Cachambi, 26 de julho de 2017.

45365

loterica-esquina-da-sorte

Orico sonha em ganhar na loteria. É pensamento fixo – quase tortura. Jamais imaginou ficar rico trabalhando. Ou por se tornar de repente dono de herança deixada por misterioso parente. Mas todos os sonhos são válidos aos que anseiam possuir imensurável fortuna. Para ele não. Necas de se imaginar de posse de baú cheio de moedas de ouro.  Nada de encontrar perdido por aí um pacote de dinheiro esquecido num banco de praça. Jamais teve o sonho de ser gratificado com pequena fortuna por algum generoso milionário.

Para Orico o sonho só se realizaria tirando a sorte grande na loteria. Nesse afã inventou um ritual cotidiano mapeado por horas e meses e dias e semanas – anos a fio – que passa dilapidando a aposentadoria precoce advinda de súbito desemprego. E isso após dez anos de casa. Simplesmente o patrão achou que ele não precisava mais trabalhar porque possuía alguns milhões no FGTS… E o despediu. Simplesmente deu-lhe um chute no traseiro. Mas Orico não tinha milhões no FGTS. Nenhum trabalhador tem.

Desde então fica a perambular pelas ruas da cidade matando o tempo com frequentar as casas lotéricas, as bancas de jornal, os vendedores de bilhetes, os ambulantes cegos. Se a casualidade levasse Orico a encontrar vendedor novo. Se esbarrasse num desses que ainda não conhecia – pode crer – Orico fazia bonito comentando com detalhes as prováveis premiações. Falava de bilhetes mais procurados em certas épocas. Informava com precisão matemática resultados de meses e anos passados, pequenos e grandes prêmios.

Reforçava o falatório de experto com notas sobre os novos ricos. O que mudara nas suas vidas. Vitórias e fracassos. Era como se Orico frequentasse o dia a dia dos ganhadores da loteria. Em frente à Casa Lotérica, de cabeça erguida para o alto a namorar números mágicos, Orico se deixa navegar nas ondas da imaginação. Sonha o que fazer com tanto dinheiro, com essa imensurável fortuna que representa aquela fileira contínua de zeros a direita de cada bilhete.

Tudo vinha à mente: carros e banquetes, casa com piscina, grandes viagens, o luxo do transatlântico. Os sonhos mais nobres de cada cidadão comum. O mais vulgar dos quais era o de ajudar amigos desamparados. Que acudiriam aos montes ao sabê-lo vencedor, ao vê-lo nalguma foto de jornal. Esse mundo fantástico surgia dos segredos de cada bilhete que Orico via dependurado como bandeirola nos barbantes. Segredos e cabalas que só Orico sabia desvendar.

Diante d’A Esquina da Sorte – sua casa mais dileta – Orico se posta de pé horas a fio, o dia todo. Só desparece por algum tempo para beber um cafezinho. Tal um arcanjo iluminado se extasia ante as luzes feéricas que transcende dos bilhetes coloridos: Sweepstake, Grande Prêmio Brasil do Jóquei Clube Brasileiro, Prêmio de São João, Sorteio da Independência.

Esses e outros lauréis da Loteria Federal e Estadual eram números especiais apregoados a alto e bom som aos passantes. Outros chamativos se tomavam da data de nascimento, dias comemorativos, aniversário da cidade, motivo para as invariáveis convocações de compra, feitas com batidas no balcão de madeira, capazes de ensurdecer os mais desprevenidos.

Mas o que era ruído para Orico não passava de música. Harmonia. Com coral e tudo como se ouvia nas igrejas de antigamente. Celestial música a entronizar a execução e realização de todos os seus sonhos. Não fossem os juros que recebe da poupança do FGTS depositado tão escassos. Se houvesse algum saldo após pagar o aluguel, o condomínio, as contas de luz e gás. Sobrasse algo do dinheirinho separado para a já racionada alimentação. Tudo seria motivo para arriscar um gasparzinho…

Ah! Tivesse Orico esse Suprimento de numerário! Juntava esse pouquinho todos os meses para finalmente comprar o bilhete que durante as semanas o esperava, como o sapo encantado do canto aguardava a princesa que o beijasse para se transformar em Príncipe. Poderia tomar posse do número enfeitado e rutilante que tremulava tal bandeirola de São João nos barbantes d’A Esquina da Sorte. Poderia por fim encerrar esse transitar em busca do milagre que só se completa quando acompanha o sorteio na sede da loteria. E recomeça no minuto seguinte.

Vendo as bolas numeradas girar na esfera metálica. Aí seus números e suas previsões se encarnam. Os prêmios vão surgindo como se obedecesse à ordem mental. Mas quem seria o felizardo a abocanhar tremenda fortuna? Justamente quem não precisa. Não ele que sequer tem uns trocados para comprar um mero gasparzinho. Não o Orico, que hoje é apenas mais um número na estatística do índice de desempregados. Não. Não ele que pena e não consegue sustentar o único Vício que tem: o sonho.

Quarta-feira sempre é dia de Loteria Federal, dia que até o jogo do bicho aproveita o sorteio para apresentar seu resultado. É quando Orico passa mais tempo na rua visitando as loterias e mais gasta o sapato pra lá e pra cá empolgado com os gritos dos pregões. Fascina-se com os números anunciados. Sorri da ingenuidade dos compradores que não distinguem um número bom de outro mau. Isso tudo confunde a viagem de Orico. Tantos são os números que se misturam com os sonhos e estes com a realidade.

Orico não sente fome nem sede. Só a ânsia da posse. A estuação do inatingível. Mesmo no inverno – o rigor do frio e os riscos de gripe, pneumonia que pode levar à hemoptise – não impedem Orico de pregar os olhos n’ A Esquina da Sorte a murmurar frases de carinho aos bilhetes. Conhecendo bem todos os números e todas as combinações sempre tem uma palavra afetuosa a dizer-lhes:

– Que pena, mas hoje não e seu dia!

– Esse sim é um lindo número!

– Ainda dará alegria a alguém!

Que era ele. Naturalmente. Sob a garoa fria de agosto a figura esquálida de faces encovadas se fixava ali embevecido. Indiferente ao burburinho da multidão que passa e entra e sai em busca da sorte. O vulto vive. Quarta-feira é dia de mistério. E ele busca a aventura: a experiência ousada de ganhar. Nos números mais desprezados encontra alento. Como naquele bilhete que está ali num cantinho abandonado.

Na vitrine aquele milhar se destaca: é atraente, é bonito, são números harmônicos. Cabalísticos para a sorte, segundo sua concepção. Feitos para a vitória. Dispostos no sentido exato – sem inventar inversões feéricas: 45365. Ele fazia as contas mentalmente: 4+5=9; 3+6=9, fechando o círculo o último e o primeiro número: 5+4=9!

No bilhete de muitas cores aparece uma casa de campo com piscina. O próprio sonho em vida! E para ele agora é mais fácil. Basta entrar n’A Esquina da Sorte, desprezar a admiração e o olhar debochado de todos e pedir:

– Me dá o bilhete 45365…

E nunca mais aparecer por aquelas bandas. Orico irá se transformar na história que ele mesmo gostaria de contar. O Orico? Responderão:

– Ganhou a sorte grande. Sumiu. Não é de aparecer mais.

É assim que de repente todos os sonhos começam a tomar corpo. São números palpáveis, é a realidade substituindo o sonho. Casa com piscina. Turismo em hotéis e praias maravilhosos. O cruzeiro no transatlântico famoso. As mulheres, as mais belas e inatingíveis mulheres, que frequentavam igual e assiduamente como os bilhetes de loteria as fantasias de Orico.

45365. Esse número perseguiu Orico por toda a vida. Agora ali está ao alcance de suas mãos, mas longe – bem longe – das possibilidades pessoais. A mão suada brinca com o dinheiro que está no bolso. Ele acaricia as notas, as mesmas notas que rendem os juros e sustentam sua sobrevivência. Treme um pouco ante tanta responsabilidade, o corpo aquece febril. Mas o destino só dá uma chance a cada mortal. É pegar ou largar.

Orico hesita. O impulso e retido pelos pés grudados no chão. O corpo não lhe obedece, como se estivesse retido por uma força divina, um alento enérgico, resistência invisível. Seu corpo balança imperceptivelmente. Como se estivesse tonto, perdido no espaço, isolado numa ilha deserta. Assim se sente flutuar diante d’A Esquina da Sorte, embebido na garoa como feto em vidro de formol.

Orico vê o velho vendedor da casa, conhecido de Orico, se aproximar da vitrine e mexer nos bilhetes. Procura algum em especial. Vira e desvira as folhas inteiras lendo os números. Para desespero de Orico ele pega o 45365. Retira-o com leveza. Orico, estupefato, não exprime qualquer reação. Dobra-o algumas vezes e coloca cuidadosamente em um envelope. Orico chora, ou serão gotas da garoa?

Um vulto de paletó azul e gravata borboleta pega o envelope onde está bilhete e guarda-o no bolso. Orico reage! Protesta! Grita que esse bilhete é seu! Mas são reações íntimas. Orico permanece estático. Paralisado, sem conseguir mexer os pés, nem tirar as mãos dos bolsos. Apenas persegue com o olhar franzido o vulto azul em forma de mariposa fugir em direção à porta e lépido desaparecer na escuridão da primeira esquina.

Rio de Janeiro, Cachambi, junho de 2017.

Partidas de xadrez

CMIL 2016 (3)– Um neto é uma bênção, com certeza! – disse-me Nathan enquanto capturava meu Cavalo. Tínhamos o hábito de jogar xadrez e o que nos aproximou, além do xadrez, foi o meu nome. Mesmo depois que expliquei que o meu nome, Salomão, não tinha origem judaica, continuamos a parceria diante do tabuleiro.

– Minha ascendência é do outro lado do Jordão – respondi, para falar dos meus antepassados libaneses.

Por isso, por brincadeira os colegas acharam de apelidar nossas partidas de “A guerra da Palestina”. O que era pura besteira, claro. Nós dois éramos os mais pacíficos contendores do lugar.

Nosso campo de batalha era o clube de idosos que fica no Posto 6, em Copacabana. Ali tem um espaço coberto, uma pequena cantina e TV, clima ameno coberto por amendoeiras frondosas, frequentado por idosos e aposentados. Além dos vários jogos de mesa – damas, carteado, xadrez, gamão, dominó – a gente aproveita para colocar os assuntos em dia, comentar os últimos fatos, para marcar reuniões, almoços, passeios. Foi uma ocupação paulatina do espaço público que, após anos de existência, foi afinal reconhecido e melhorado.

Enquanto as pessoas se dirigiam para a praia nas manhãs ensolaradas, nós dois jogávamos, ensimesmados, várias partidas de xadrez. Aos sábados pela manhã era comum os grupos de adolescentes passarem pelo calçadão entre risos e gritos rumo à praia. Mas hoje era um dia especial para mim e tive de encurtar o match. – Nathan, disse, hoje é aniversário do meu neto, portanto, tenho de sair mais cedo. Foi quando ele me respondeu com a frase. E depois repetiu mais uma vez:

– Um neto é uma bênção, sim, é uma bênção!

Depois que a partida se iniciou, fizemos a troca de várias peças e, após alguma escaramuça, chegamos a um final empatado, porque apliquei um xeque perpétuo com a Rainha.

– E estavam os homens de Israel já exaustos. Sentenciou Nathan ao resultado da partida.

Trocamos as peças e o relógio de lado.

– Você tem netos? – perguntei enquanto arrumava o tabuleiro para nova partida.

Nosso jogo era na modalidade rápida, isto é, cinco minutos para cada jogador, marcados no relógio. Quando a setinha de um dos lados caía, a partida estava perdida, fosse qual fosse a posição. Desta vez Nathan estava com as peças brancas e abriu com o Gambito do Rei, do qual pouco sei e me desgosta.

– Não, não tenho netos – Nathan respondeu de modo evasivo e entendi que não era assunto para esticar conversa. A partida continuava tensa. Nathan, por seu lado, conhecia bem o Gambito do Rei e em breve minha posição estava destroçada.

– Talvez eu leve o neto para um passeio ao zoológico, o que você acha? A frase me saiu suave, mas minha mente vagava pelo tabuleiro, procurando um jeito de escapar da derrota.

– Ah, sim, o zoológico é sempre um bom passeio. Nathan respondeu sem se desconcentrar da partida.

– Lembro o meu avô, que preferia o passeio no zoológico, onde quase não se tem despesa. Sem encontrar solução que me salvasse, vi o meu tempo no relógio se escoar rápido, portanto perdia a partida no tabuleiro ou no tempo.

– Os bichos, claro, eram sempre os mesmos, mas, enfim, a gente achava sempre uma novidade, como passear no pedalinho, soltar pipa ou jogar vôlei na grama. Por isso era sempre um bom passeio. – Eu me mantinha concentrado na partida e sofria com aquela posição lamentável de derrota iminente.

– Nathan! Nathan! Por que me massacras assim? Serei acaso um filisteu esmagado por Saul?

Nathan riu da comparação, um tanto absurda de quem desconhece o Velho Testamento. Olhou o relógio, analisou a posição desastrosa em que, com justiça, me colocara e disse.

– Acho que chegamos a uma posição de empate. Sem achar um lance que me livrasse da catástrofe, nem saber o que fazer, o tempo se esgotou.

– Tá bom, empate, tá bom, disse conformado, embora ele fosse o vencedor de verdade.

– Recordo-me de outro passeio que meu avô gostava de me levar. Era no Jardim Botânico. As árvores e palmeiras dignificavam o verde, ambientando a natureza com um jardim belíssimo. Os pequenos animais e pássaros circulavam livres. O clima no Jardim Botânico, sempre ameno e tranquilo,fazia com que nos divertíssemos, correndo, descobrindo o nome das plantas, catalogando as dezenas de borboletas que voejavam ao redor.

Arrumamos as peças, desta vez eu estava de brancas. Abri a partida com uma Trompowsky e logo vi o nariz de Nathan se franzir de desgosto. Ele sabia que a minha pouca fama no xadrez se devia a essa abertura.

– Hum, sim, agora você deu uma boa ideia, o Jardim Botânico, sim, é muito bonito, parece um lugar sagrado, um monastério da natureza. Tomei o cavalo de f6 ele retomou com a Rainha, me deixando numa posição confortável na partida. Depois que fiz o Grande Roque, notei que o Rei de Nathan ainda estava no centro do tabuleiro e forcei um ataque frontal.

– Li no jornal que tem um circo na Praça Onze, não tem? Eu bem que gostaria de levar meu neto lá. Ele nunca foi a um circo, iria gostar um montão. Nathan respondeu com um grunhido.

– Hum-hum. Pensava na partida. Por mais que cercasse seu Rei de defensores, minhas peças sempre achavam uma brecha para atacá-lo.

– Ah, sim, sim, o circo. Quando o Circo Garcia esteve aqui o meu avô achou um jeito de me levar. Entramos pela lateral, onde os artistas se preparavam para a função. Nathan mais uma vez olhou as minhas peças prontas para o ataque final ao Rei exposto e clamou:

– Salomão, Salomão! Por que persegues tanto este pobre judeu que erra pelo mundo desde que seus antepassados foram expulsos de sua querida Galícia? Acalmei a sua lamentação com uma oferta de empate que Nathan aceitou de bom gosto.

– Também fui muitas vezes ao Circo Garcia. Nathan deixou escapulir um sorriso com a lembrança. Aquele palhaço, o Pimbolim, era na verdade Jozieck, um polonês amigo do meu avô que aqui virou José, falava bem o brasileiro. Quando os ossos e as juntas não aguentaram mais os malabarismos da profissão, ele se cercou de palhaços jovens. Nathan começou a partida com o peão do Rei e, ao responder com c5, entramos na Defesa Siciliana.

– Seus alunos, jovens cheios de vitalidade, repetiam as cambalhotas e os saltos que Joziek dera na juventude. Na verdade essa é a parte mais difícil da apresentação e sendo bem feita consegue alegria suficiente para sustentar os aplausos em todo o espetáculo. Depois da troca de peões joguei e5 e quando Nathan recolheu o Cavalo atacado para c3 me senti confortável.

– Sim, sim, leve o seu neto ao circo, ele vai adorar. Toda criança gosta do circo. Os velhos também. Levei a partida para uma troca das peças maiores e o que restou era suficiente para arrematar uma brilhante vitória.

– Sabe Nathan, acho que os velhos costumam levar as crianças ao circo porque na verdade eles é que querer estar lá, não é?

Ao ver Nathan coçar a sobrancelha repetidas vezes, senti que meu plano de jogo foi um sucesso. O tempo dele tinha se esgotado. O meu também. Ele reclamou o empate a que tinha direito.

– Ensina-me ó Senhor, o caminho dos teus estatutos e guardá-lo-ei até o fim, eu disse bem devagar. Acho que a partida está empatada. Sim. Assim é a lei, assim será. Ele respirou fundo, mas respondeu animado:

– Sim, sim empate. – Começamos a trocar as peças e o relógio para iniciar nova partida.

– Ah, Nathan, lembro que fui um dia no Planetário, fiquei extasiado diante de tanta beleza, aquele céu, os astros, planetas se movimentando, será que ele também não gostaria? Lá vem Nathan de novo com o Gambito do Rei. Dessa vez não me preocupei com aquela oferta tipo Cavalo de Tróia e continuei desenvolvendo as peças.

– Não acho que o Planetário seja uma boa ideia. O Calian ainda está muito novo, apenas quatro anos, não vai entender. Mas será um passeio para o futuro, sem dúvida. No meio jogo Nathan havia ocupado o centro do tabuleiro de maneira eficaz. As escaramuças começaram e quando tudo se acalmou eu tinha perdido dois peões, sem saber como! Mesmo assim inferiorizado, consegui uma defesa estupenda. A partida estava tão interessante que ambos os tempos caíram e a gente não se deu conta. Nesse caso é empate sem contestação.

– Sabe o que penso? Hoje todos os shoppings têm um pequeno parque de diversão para crianças. Acho que pode ser uma boa opção. Arrumamos as peças para aquela que seria a última partida, conforme combinamos. Era hora de ir ver o aniversariante. Não queria deixar o Nathan sozinho, por isso convidei várias vezes para me acompanhar. Recusou todas.

– Não, obrigado, mas ainda vou ficar aqui jogando umas partidinhas. Sei que é mentira porque os outros parceiros sempre acabam a partida com discussão sobre isso e aquilo. Esquecem que o jogo é para divertir e não guerrear, até alguns insultos são ouvidos.

Na despedida marcamos o mesmo horário para o dia seguinte e ali estávamos os dois de novo preparando os soldados para a batalha. Nathan nem esperou eu tomar o cafezinho:

– E então, como foi o aniversário de Calian? Não forcei pressa nenhuma, tomei o café em goles lentos, sentamos frente a frente como dois generais.

– Bem. Cheguei lá, encontrei-o só com a empregada. A mãe foi trabalhar, o pai foi trabalhar. Nem mesmo a minha chegada trouxe a ele alegria suficiente. Nathan, de brancas, começou a partida com e4, eu respondi e5 e em vez do Gambito do Rei ele colocou o Cavalo na casa f3.

– Enfim, cancelei todos os projetos e fomos comprar os apetrechos para a festa. Depois, passamos o tempo arrumando a mesa com bolo, torta, muitos doces, balas, presentes, refrigerantes. Respondi ao lance com o Cavalo em c6 e a partida logo se converteu numa Ruy Lopez. Quando estava tudo pronto ficou uma bela mesa, com muitas bolas de gás coloridas, uma faixa velha que dizia FELIZ ANIVERSÁRIO.

A cabeça de Nathan devia estar tão longe quanto a minha. Ele a relembrar tempos passados e eu com o pensamento no dia de ontem.

– A beleza do arranjo era tanta que Calian quis cantar parabéns pra você logo. Assim fizemos, eu ele e a empregada. Pelo menos seus olhos ganharam brilho quando nos demos um forte abraço. O tabuleiro parecia um campo de futebol com todos os jogadores e o público no estádio. A partida não teve trocas de peças, estava tudo bloqueado. Ninguém arriscava nada.

– Depois saímos e fomos encerrar a festa numa pizzaria. Quando voltei para casa, já era noite e minha filha me telefonou agradecendo a festinha que tinha arranjado. Num agradecimento silencioso só pude relembrar quantas vezes fiz o mesmo para ela! Quase não ouvi a voz de Nathan declarando a partida empatada.

No dia seguinte na verdade não conseguimos jogar nenhuma partida completa. E, como sempre, todas terminavam empatadas. Desde o primeiro lance vi que Nathan não estava a fim de jogar. Nem mesmo declamou as frases bíblicas que costumava dizer quando a partida me era favorável. Assim distraído também não ouvia minhas perorações lamentando a posição lastimável da partida com a qual tinha me destroçado sem piedade. Seu pensamento vagava por paragens que eu desconhecia.

Grupos de crianças com pais, adolescentes, adultos, idosos, vendedores de mate, biscoito Globo e picolé passavam em direção à praia. Fazia um domingo de verão real: sol, poucas nuvens, brisa suave. O mar de águas verdes estava convidativo e seus adoradores acorriam aos montes. Mas Nathan caminhava pelo deserto.

– Sabe Salomão, disse-me segurando a peça no ar, como se não soubesse em que casa deixá-la, na verdade eu tenho uma neta. Venho aqui jogar com você faz tempo, mas é o prazer de vê-la passar com as colegas para a praia que me comove.

Só então entendi aqueles momentos que Nathan fixava os olhos num ponto inalcançável. Não era a concentração que o xadrez exige, como eu pensava, e sim o encantamento de ver a neta. Nathan resolveu me contar a história da filha que tinha casado contra a vontade religiosa da família. E como ela se deu ares de liberdade para ir viver seu próprio carma. E como tinha lhe dado uma neta de cabelos claros e olhos azuis como os olhos da avó. Uma história bem comum, que nos levou a uma partida harmoniosa, repleta de lances maravilhados alimentados pelo orgulho de que, ambos, tivemos filhos com vontade própria, que fazia nossa árvore genealógica crescer. Por coincidência um grupo de adolescentes apareceu do outro lado da calçada. Carregavam todos os apetrechos de praia, pranchas, bonés, toalhas, bolsas.

– É ela, Nathan disse para si e para mim. – A loirinha tinha os mesmos olhos do avô, cabelos amarrados para trás, era a mais agitada do grupo. Divertia-se, sorria, mexia com as colegas, dava gritos e gargalhadas próprios da idade. Era uma turma livre, dava pra ver, ela se destacava pela liderança que todos aceitavam e apoiavam. Depois que o grupo pisou na areia, sumiu de nossa visão. Voltamos às partidas e até o entardecer aturamos a gritaria dos jogadores vizinhos que atraem a batalha do xadrez para sua própria vida.

No dia seguinte, quando cheguei para as escaramuças de sempre, tive de aturar as reclamações de Nathan pelo atraso. Mas eu cá tinha motivos secretos por aquela demora. Uma missão nada fácil a cumprir.

– Não sei se você esqueceu – disse a ele – este domingo é Dia dos Pais, o que significa também dia do avô, não é? Nathan por fim concordou com a justificativa e começou a jogar furiosamente. Quantas vezes eu tive de suplicar por um empate, clamando por todas as razões bíblicas e do Torá. Nathan sorria, se divertindo com as minhas tentativas frustradas de escapar da sua fúria enxadrística. Mas ele estava inspirado. Ou então eu é que estava ansioso demais nesse dia. Enfim, todas as partidas terminavam com Nathan em grande vantagem, mas sempre ele me oferecia empate.

Combinamos terminar mais cedo a maratona de xadrez e seguir nosso destino de sermos pais duas vezes. Ele, naturalmente, sentia-se um pai abandonado. Mesmo assim não perdeu o hábito de ficar olhando os grupos de pessoas que passavam em direção à praia. Estava realmente um domingo luminoso, desses que só acontece em Copacabana, no posto 6. Seu olhar se voltava triste para o tabuleiro ao constatar que a turma de amigos da sua neta demorava a passar. Quando chegávamos ao fim de mais um jogo, dei uma mirada em direção à Av. Nossa Senhora de Copacabana e decretei:

– Esta é a última partida! Nathan afogueou-se chateado com a notícia e – apesar de minhas súplicas – ameaçou o meu Rei com mate em três lances! Antes que ele devorasse meu pobre Rei – pois não abandonei a partida – disse-lhe:

– Nathan, você tem visita. Ele se virou lentamente surpreso. À sua frente estava sua filha com a neta. Os olhos azuis de Nathan brilharam de alegria. Foi o que me salvou do cheque-mate, pois ele nem me viu sair de fininho no rumo da praia.

*****

Partidas

Salomão – Nathan (Gambito do Rei)

  1. e4 e5 2. f4 exf4 3. Bc4 f5 4. De2 fxe4 5. Cc3 Cf6 6. Cxe4 Cxe4 7. Bd5 c6 8. Bxe4 De7 9. c4 g6 10. d4 Bh6 11. c5 Rd8 12. Bd2 b6 13. Cf3 Ba6 (0-1)

Nathan – Salomão (Siciliana Dragão)

  1. e4 c5 2. Cf3 g6 3. Cc3 Bg7 4. d4 cxd4 5. Cxd4 Cc6 6. Be3 Cf6 7. f3 O-O 8. Bc4 Db6 9. Dd2 Cxe4 10. fxe4 Bxd4 11. Bh6 Dxb2 (0-1)

Salomão – Nathan (Bogo-India)

  1. d4 Cf6 2. c4 e6 3. Cf3 Bb4+ 4. Bd2 a5 5. Cc3 O-O 6. e3 d6 7. Dc2 Cbd7 8. Bd3 e5 9. O-O Te8 10. e4 exd4 11. Cxd4 c6 12. Tae1 Ce5 13. h3 Bc5 14. Be3 Bxh3 (0-1)

Salomão – Nathan (Siciliana Dragão)

  1. e4 c5 2. Cf3 d6 3. d4 cxd4 4. Cxd4 Cf6 5. Cc3 g6 6. f4 Bg4 7. Bb5+ Cbd7 8. Bxd7+ Dxd7 9. Dd3 e5 10. Cf3 Bxf3 11. Dxf3 Dg4 12.Cd5 (1-0)

Nathan – Salomão (Siciliana)

  1. e4 c5 2. Cf3 d6 3. d4 cxd4 4. Cxd4 Cf6 5. Bc4 Cxe4 6. Dh5 e6 7. Bb5+ Bd7 8. Cxe6 Da5+ 9. Bd2 Cxd2 10. Bxd7+ (1-0)

Salomão – Nathan (Caro-Kann)

  1. c4 c6 2. e4 d5 3. exd5 cxd5 4. d4 Cf6 5. Cc3 Cc6 6. Bg5 Db6 7. cxd5 Dxb2 8. Tc1 Cb4 9. Ca4 Dxa2 10. Bc4 Bg4 11. Cf3 Bxf3 12. gxf3 (1-0)

Rio de Janeiro, Cachambi, 17/12/2010-2016

O catador de cocô


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O Gari – Murilo Sá de Toledo

Quando foi promulgada a Lei nº 2575, de 30/09/1997, que “dispõe sobre a obrigatoriedade dos proprietários de animais identificar os animais” de sua propriedade, em seu artº 2º, determinou que “os proprietários de animais deverão recolher as fezes de seus animais dos logradouros públicos”, José Carlos Ferreira, o Ferreirinha, viu a oportunidade de reforçar a aposentadoria de um salário mínimo que recebia. Isso porque a lei incluía mais três artigos: o art. 3º, que dispõe sobre as penalidades da infração: Os proprietários de animais que não recolhem as fezes de seus animais dos logradouros públicos cometerão infração, a ser apurada através de processo administrativo”.        

No § 1º a lei fixa que “a fiscalização será exercida pelo órgão competente”, enquanto que os artigos 4º e 5º tratam de seu regulamento pelo Poder Executivo e do vigor com que ela se aplicará: “Esta Lei passa a vigorar na data da sua publicação, revogadas as disposições em contrário”. Em letras cabais, cheias de firulas, assinava-se, orgulhoso por ter sido o autor universal de tão brilhante ideia: vereador Paulo Barão. A lei, como era de esperar, virou notícia de jornal e replicou em diversas cidades do país, que implantaram – com algumas variantes – o mesmo sistema. Noticiários de rádio e TV, as mais variadas manchetes dos jornais, provocaram um rebuliço geral. O condutor deve recolher as fezes dos animais” – tal era o protótipo de várias manchetes.

As reportagens detalhavam: “Inúmeros proprietários de animais passam pelas ruas, praias e praças sem se preocupar com a coleta e a destinação das fezes. Além do transtorno para as pessoas que passeiam, é também ameaça à saúde pública”. A declaração, do vereador Thiago Ferrão, serviu para embasar a lei que prevê “a responsabilização dos proprietários e condutores de animais que não observam a obrigação de recolher e dar destino adequado ao excremento dos animais”. Diz o texto que “os proprietários ou condutores dos animais denunciados ou flagrados em delito estarão sujeitos a multas e ao recolhimento do animal para o Canil Municipal”.        

As secretarias municipais aderiram ao boom, setores colaterais consultados apareceram para fornecer estatísticas e os males que causam o cocô do cachorro. Segundo o setor de zoonose, a cidade tem imensa população de animais de estimação, “número tão elevado que merece a atenção da municipalidade e a colaboração dos munícipes proprietários desses bichos”.

De acordo com a justificativa do projeto, além de coletar as fezes evacuadas em logradouro público, o dono deve descartá-la em local apropriado, na residência, onde cuida e trata do animal. “Outro comportamento que merece atenção é quanto ao recolhimento das fezes feito em saquinho inapropriado, descartado em lixeiras, residências, lojas, bancos, shoppings comerciais, sem a destinação adequada” – diz ademais o texto.        

“Ao andar pela calçada, quem nunca teve que desviar ou mesmo chegar a pisar nas fezes de cachorros e gatos expelidas no meio do caminho? O incômodo poderia ser evitado se os donos adotassem a medida simples de recolher os dejetos do animal. A obrigatoriedade do ato é prevista em lei, mas como não há fiscalização, a norma não é cumprida”. Para amenizar os transtornos e informar a população, as praças receberam placas alertando sobre a exigência da legislação. 

Além de obrigar proprietários a recolher os resíduos fecais, a norma prevê, para determinadas raças, obrigatoriedade do uso de focinheiras, comprovação de adestramento e vacinação. Apesar de já existir em alguns municípios, a lei não havia sido posta em prática de forma tão agressiva. De acordo com o Sub-Secretário-Adjunto, a lei prevê multa aos que forem flagrados infringindo a norma. A população pode denunciar o desvio através do Carioca Digital ou do 1746 – Disque Cocô. O anonimato está garantido! Tendo em vista o sucesso da lei, o autor efervesceu e não deixou a peteca cair. Divulgou uma campanha educativa de esclarecimento à população, ressaltando a importância da iniciativa.

“A propositura tem caráter educativo-ambiental de saúde pública. Os animais sujam as ruas, os donos não limpam. Eles fazem [cocô] na casa, em calçadas, na vizinhança e o dono não recolhe. É necessário, saudável e ecológico dar exemplo às crianças”. Disse mais ao jornal da TV: “A lei está em vigor, determina multas e penalidades aos animais que não recolhem resíduos fecais dos responsáveis em ruas, calçadas, praças e espaço publico – mas o foco é educativo”. O remate cresce em importância: “Tendo em vista as muitas solicitações e contatos que me têm sido feitos, tenho fé que em breve as mais importantes cidades do mundo estarão imitando o Rio de Janeiro”.         

Logo apareceram empresas especializadas no assunto: folhetos, clipes e vinhetas foram fartamente divulgados em todos os bairros, nos condomínios, nas associações de moradores. As entidades de classe – SíndicoNet, Secovirj, SinSíndicos, os representantes do Sindicato dos Hotéis, Bares e Similares, entre outras associações, aderiram em peso. Diz um certo folheto da campanha: 

VAMOS COLETAR PESSOAL!
As fezes de cachorro são um problema de cidadania e saúde publica. Segundo o IBGE, o Brasil tem alto percentual de animais domésticos em relação à população humana – uma batelada de milhões de animais. Grande parte dos bichos despeja fezes nas calçadas, praias, terrenos e praças, complicando a vida dos habitantes. A convivência com as fezes aumenta o risco de adquirir muitos tipos de doença. O verão, cujas chuvas inundam a cidade, traz várias moléstias para a população. É o cenário ideal para alastrar a leptospirose, as verminoses, a micose por fungos e outras doenças. A população registra queixas diárias, solicitando a limpeza de vias sujas por fezes animais. Uma solução prática e inteligente pode acabar com esse problema.
Desenvolvido pelo Kaká Hospital Animal o recém-lançado Katakokô é hoje uma realidade e está ajudando a frear a onda de doenças. Usado em mais de 1.000 condomínios, edifícios, vilas e residenciais, o kit coletor de fezes Katakokô é prático e fácil. Composto por pás, saquinhos, máscara facial e luvas esterilizadas, o Katakokô é a solução ecologicamente correta para recolher as fezes de seu pet de estimação.   Dr. Luiz Pentu, patrono do Kaká Hospital Animal, ressalta que “o recolhimento dos dejetos é questão de educação e importante solução para a saúde pública”. Os benefícios que o Katakokô traz: ajuda na higiene da cidade, evita doenças, limpa o meio ambiente. E mais: você escapa de prejuízos, pois, de acordo com a lei municipal, aquele que for flagrado sem recolher as fezes, terá que pagar multas.
Hoje se usa sacos de plástico que, depois de recolher as fezes, demoram até 500 anos para sumir do meio ambiente – mesmo o biodegradável. Em todo o mundo se produz bilhões desses sacos a cada ano, enfatiza o Dr. Luiz Pentu: “A tinta usada no plástico tem cádmio, metal pesado e tóxico”. O Kit é “UMA ALTERNATIVA VERDE” – o Katakokô é de material reciclado, totalmente biodegradável. É a opção ideal que ajuda o meio ambiente, os animais e a sociedade. De maneira fácil e rápida você recolhe as fezes do seu bichinho de estimação, mantém a cidade limpa e ajuda a combater a proliferação de enfermidades. O Katakokô pode ser adquirido por pessoa física ou jurídica e tem desconto no imposto de renda. Visite o site www.katakoko.com.br para contato, informações e aquisição do produto.
AJUDE A CIDADE! PROTEJA AS CRIANÇAS!            

Evidente que tanto rebuliço bateu na cabeça de Ferreirinha enquanto preenchia na subprefeitura do bairro o formulário no qual se candidatava a uma vaga de agente que iria fiscalizar o cumprimento da Lei nº 2.575, de 1997. Algumas exigências ao cargo ele já preenche naturalmente: é morador e conhece bem a geografia do bairro, sabe qual o foco principal da Lei, tem o primeiro grau completo, sabe ler e escrever, o título de eleitor e o certificado de reservista estão em dia, não tem antecedentes criminais, nem ficha no Dops, etc. etc.         

Seu otimismo aumentou quando no ato da prova reparou que só ele e mais dois candidatos compareceram. Quando os demais desistiram por causa da baixa remuneração (um salário-mínimo), Ferreirinha já se via alçado ao cargo. Para ele aquele salário-mínimo iria dobrar a aposentadoria por idade, engolida dia-a-dia pela inflação, pelos tubarões e atravessadores que infestam imunes à fiscalização, os supermercados, quitandas, bares, restaurantes e mercearias. Ferreirinha trabalhou 45 anos recolhendo benefício, mas o Governo disse que ele não tinha direito a porra nenhuma!         

Assim foi. Quando recebeu a convocação para se apresentar na subprefeitura, “munido de todos os documentos”, Ferreirinha aparou os cabelos, fez a barba, limpou os sapatos, vestiu a melhor calça e camisa engomadas e para lá se dirigiu a pé, distância de dois quarteirões, mais ou menos. No local foi atendido por um funcionário, apresentou documentos, assinou papéis que nem leu, teve a carteira de trabalho preenchida, recebeu uniforme de brim completo, calçados e meias pretas, crachá autêntico e a declaração peremptória:         

– Senhor Ferreirinha, parabéns! O senhor cumpriu todas as etapas e exigências para o cargo e agora é servidor municipal. Está admitido! Apresente-se para começar a trabalhar na próxima segunda-feira. 

Nos primeiros trinta dias Ferreirinha cumpriu rigorosamente o determinado para a sua função. Mas descobriu que tinha de executar uma tarefa que desconhecia: durante o final da ronda, que terminava no começo da noite, ele teria que recolher os excrementos achados nas vias públicas e não coletados. Ele bem que pediu explicações, e foi atendido: no decreto que regulamenta a lei estava lá o último parágrafo que estabelecia a tarefa a executar. Mas, para sua alegria, também soube que essa função seria remunerada com um acréscimo, de acordo com o peso recolhido. Para isso recebeu os equipamentos necessários: carrinho de duas rodas, sacos biodegradáveis, pás, luvas, protetor facial, etc.         

No dia cinco do mês seguinte Ferreirinha recebeu pelo correio o contracheque, no qual constavam os seus dados pessoais, denominação de funcionário público e descriminava a remuneração, naturalmente amputada dos muitos descontos. Em paralelo e com surpresa, ele também recebeu um boleto bancário do Sindicato dos Trabalhadores Específicos do Rio de Janeiro, para recolher a Taxa Anual. Estava lá o seu nome, a função, o endereço e telefone da sede sindical, o banco ao qual pagar, tudo direitinho. Também lá estava o acréscimo por recolha das fezes encontradas, em verdade uma mixaria de centavos, indicada pelo cálculo do peso. Ele viu e gemeu, lamentando que cocô de cachorro fosse tão leve.        

Os meses passaram, Ferreirinha cumpria suas obrigações naturalmente. Certo tempo ele viu que nos mesmos lugares que catava as fezes de animais não recolhidas, locais mais escondidos do olhar, nos troncos de árvores, nos jardins, nas encostas de paredes e muros, nos locais poucos usados das praças, bem ali ele encontrava muitas fezes de moradores de ruas. Que fazer? A princípio nada, deixou pra lá. Depois, com o tempo e chateado com a sujeira, Ferreirinha reavaliou bem a situação e resolveu que também era sua obrigação fazer a coleta: tinha como dever igual manter limpos os logradouros da cidade, assim como colaborar para a boa saúde da população.         

Essa boa vontade com que agiu – de modo espontâneo e visando apenas o cumprimento do dever – deixou Ferreirinha mais satisfeito ainda quando o contracheque acusou melhoras no rendimento extra, e a constatação de que as fezes humanas são mais pesadas do que dejetos de animais. O rendimento mensal melhorou, mas esse aumento provocou também a atenção de seus superiores. Ao fim de um dia de trabalho encontrou em seu armário pessoal uma convocatória para reunião, que atendeu sem atinar do que se tratava.         

– Senhor Ferreira, estamos aqui reunidos porque constatamos um aumento excessivo no peso de suas coletas. A princípio não vimos nenhuma mistura extra, como terra e pedras, senão na quantidade aceitável. No entanto, para melhor estudar a situação, já que o aumento em quantidade e peso foi excessivo, pedimos aos laboratórios da Fundação Oswaldo Cruz uma análise minuciosa e detalhada do material recolhido.         

Ferreirinha ficou entre surpreso e incomodado. Por que não perguntaram a ele? Teriam assim poupado os técnicos de Fundação Oswaldo Cruz, que decerto têm mais o que fazer ao invés de analisar cocô…         

– Se houvesse perguntado a mim, seu diretor, eu informaria logo que se trata de fezes de moradores de ruas que, mais que animais de estimação, empesteiam as ruas de nosso bairro e podem causar igualmente doenças à população e às crianças. 

– Mas seu Ferreira, o senhor prestou concurso e foi admitido para a função de fiscalizar o que determina a Lei nº 2575, de 1997, que obriga o cidadão à coleta das fezes de seus animais de estimação. Assim o senhor está extrapolando a função determinada pelo diploma legal. 

– Achei que era minha obrigação de funcionário público – e dever de cidadão – também colaborar para que isso não ocorresse. O senhor não sabe quanta imundície esses moradores de rua fazem. Urina, fezes, vômitos, restos de comida. Além do mais todos eles carregam consigo crianças, gatos e cachorros aonde quer que andem. 

Fosse qual fosse o argumento de parte a parte, o certo é que Ferreirinha viu no mês seguinte seu contracheque minguar e retornar o dígito dos centavos a parte da coleta extraordinária. Uma injustiça! Mas que fazer? Lembrou-se do Sindicato, pegou o boleto, telefonou explicando a situação. O atendente o colocou em contato com o “Departamento Jurídico”, que logo viu ali uma situação a ser exposta. 

– Senhor Ferreirinha – esse é seu nome mesmo? 

– É Ferreirinha mesmo. Foi homenagem de minha mãe quando o cantor morreu. Ela era fã da dupla sertaneja João Ferreira e Ferreirinha. Ainda hoje guardo os LPs e fitas cassete das músicas. Minha mãe tinha até o autógrafo dele num retrato da época. 

– Bem, senhor Ferreirinha, o Sindicato vai averiguar o que ocorreu e irá pleitear a volta da inclusão de todos os dejetos recolhidos. Tal atribuição não consta da lei, mas é inegável que o senhor agiu como um cidadão de responsabilidade ao assumir a tarefa. As fezes humanas trazem os mesmos malefícios que dos animais. Venha à nossa sede amanhã de manhã, às nove horas. Não se preocupe com o trabalho, o senhor levará um ofício do Sindicato justificando o atraso. 

No outro dia, conforme combinado, estava o Ferreirinha às nove horas da manhã chegando ao Sindicato. Foi recebido por uma moça: 

– Sente-se, por favor. O Dr. José Inácio virá logo. 

Dr. José Inácio não se demorou. Abraçou Ferreirinha efusivamente: 

– Seu Ferreira, com essa atitude corajosa o senhor prestará um grande serviço à sociedade, à classe trabalhadora e ao nosso Sindicato. 

Os olhos do sindicalista brilhavam de emoção. Aquilo era de dar pano pras mangas. Não demorou retornou a moça trazendo cafezinho e água para os dois. 

– Já estive estudando o caso. A primeira atitude que vamos tomar é declarar greve por 24 horas, de acordo com a Lei nº 7783, de 1989. Amanhã chegando ao trabalho, apresente ao seu superior este Ofício do Sindicato, permaneça no local, mas sem fazer nada. Não saia, não execute nenhum serviço. O senhor ficará em greve de advertência por 48 horas. Depois volta a trabalhar normalmente, enquanto entramos em negociação. 

A paralisação de 48 horas serviu para mostrar à população a eficiência com que Ferreirinha cumpria o dever. Choveu telefonema, reclamações, boletins de ocorrência – tudo reclamando do fedor e da sujeira que a ausência do servidor tinha ocasionado. Reclamações dos síndicos, abaixo-assinado de quem pensava ter acabado o serviço – coisa comum na administração pública – azucrinaram por mais de 48 horas os telefones do sub-prefeito-adjunto, o da Prefeitura 2746, a quem estava subordinado o serviço. 

O caso andou, o Sindicato cumpriu o que se propôs, alguns jornais e TV noticiaram o caso. Ferreirinha apareceu, deu entrevista e ouviu elogios sobre a iniciativa. A opinião de grande parte dos moradores do bairro se mostrou simpática a ele. Outra parte, a minoria, acha que a lei deve ser cumprida com rigor. Seguindo instruções do Sindicato, Ferreirinha continuava a recolher todo material fecal da sua jurisdição, fazendo a pesagem em conjunto, documentada com tíquete da balança. 

Passado os tempos tumultuosos, Ferreirinha aguarda impaciente o dia 16 de maio próximo – Dia do Gari – data em que os litigantes, acompanhados de representantes, advogados, simpatizantes e sindicalistas, comparecerão a audiência de conciliação no Ministério Público, onde será tomada decisão sobre o caso em pauta. Já é sabido que, em caso de derrota nesta instância, Ferreirinha pensa em recorrer ao STF ou ao Juiz Sérgio Moro. 

Rio de Janeiro, Cachambi, 15 de dezembro de 2016.

Canarinho da Terra

canarinho-da-terra

– Bastião morreu!

Foi essa notícia que correu de manhã cedo no Pontão do Itapary, acordando o povoado inóspito e ainda pouco habitado da Ilha do Maranhão. O pontão ganhou esse nome porque suas terras terminam abruptamente numa faixa estreita e se debruçam num despenhadeiro direto para o mar. Ali é lugar de raras árvores devido ao solo barreirento vermelho que só aceita vegetação forte resistente ao vento salgado, à vasa caribenha. Por isso a mangueira, o murici e alguns cajueiros escassos prevalecem sobre a vegetação rasteira entremeada de algum pé de oiti, algumas moitas de compridas juçareiras. É raro mas ainda se pode encontrar uma ou outra palmeira de babaçu, um pé de pitomba, mas bacuri, cupuaçu, buriti – só na feira mesmo. O resto é tomado pela poderosa e resistente vegetação de restinga que domina tudo.

A notícia correu e logo se formou uma fileira de moradores a caminho da casa de Sebastião, a última de quem vai acessar a praia pedregosa e estreita depois de transpor a grande barreira que se precipita sobre o mar. As mulheres trataram de cuidar de tudo: coar café, lavar louças, fazer comidinhas, preparar o defunto para as exéquias. Os homens sentaram-se nos bancos que rodeavam a sala conversando entre si sobre as circunstâncias que levaram Sebastião a dar o suspiro final. Logo surgiram do nada alguns litros de tiquira que foi rodando de mão em mão e depois outro e mais outro, posto que o primeiro esvaziou-se bem rápido.

Os amigos eram poucos, podia-se contar nos dedos, quase todos tinham se conhecido na Birosca do Almir entre gritos, palavrões, piadas e grogues de tiquira. Quando o bem querido Bastião chegava fazia festa, abraços apertados, piadas comuns. Sebastião pedia tiquira, mas ao invés da maioria dos seus amigos, não bebia de uma talagada só, ficava ali no canto do balcão dando bicadas e a dose demorava bem meia hora para desaparecer do copo. Dali em diante caberia mais outra dose se a conversa tivesse consideração, não fosse uma montoeira de bobagens que poderia ouvir em qualquer canto. Se fosse história de pescaria, construção de novos barcos, contos de peixes assombrosos, aí gostava, era caminho pra mais uma tiquira. Não fosse assim se despedia com o mesmo entusiasmo e saía de fininho.

Agora Bastião estava estirado em um caixão sem lustro e sem dourados, tinha ao redor os companheiros e não podia ouvir as lorotas nem reclamar das bocas sujas que expeliam mais palavrão do que outra coisa. Se lhe coubesse mais alguns minutos de vida, ouviria palpites sobre a morte inesperada, cada qual cheio de razões puxando farinha para seu angu. Relembravam a vida de Bastião: ora surgia o amigo sincero, ora as discussões alimentadas pela tiquira, mais adiante falavam das brigas e ameaças de rompimento da amizade, mas sempre havia o reatamento diante do homem de bom coração. Bastião era perdoador por natureza, compreendia as fraquezas humanas, a grandeza do perdão e se exaltava provando sua tese com inúmeras provas e milagres.

Zequinha e as poucas crianças que chegaram até lá preferiam olhar a meia dúzia de gaiolas com os passarinhos que eram a idolatria de Bastião. Logo acharam jeito de limpar o forro das gaiolas, trocar os jornais sujos por folhas novas, botar água, painço, alpiste. Tirando fora as peripécias das pescarias, o perigo heroico que corre o homem do mar, as manobras executadas nas embarcações frágeis diante das tempestades, Sebastião só demonstrava ardor e entusiasmo pela família de passarinhos.

Sebastião tinha chegado ali no Pontão do Itapary de retorno, depois de morar na Ilha de Carimã onde casou e teve filhos com a mulher que se amasiou em Raposa, numa noite de muita tiquira com mel. Agora, vendo que os filhos crescidos já tinham partido para São Luís, Rio de Janeiro e São Paulo, ouvindo da sala onde assistia a TV, deu de cara com a mulher desleixada roncando como um trovão, situação que seria suportável apenas para o amasio dela, não mais para ele… Foi assim que Bastião arrumou as poucas roupas na mochila, virou as costas e em silêncio partiu de volta ao Pontão de sua infância e molecagens esperançando nunca mais sair dali.

Tendo se aposentado dos perigos da pesca em alto mar aos 65 anos, Bastião ainda constituiu uma nova família: o bigode, a pipira, o sabiá preto, o canário da terra. De mulher mesmo ele recebia visita só da preta Jurema que aparecia de vez em quando para arrumar a casa, lavar roupas, fazer peixadas, beber tiquira e apascentar a sensualidade com o fogo sexual e os abraços do homem curtido. Agora mesmo Sebastião iria completar 68 anos de idade, hora boa para morrer, diziam os comentaristas ao redor do defunto, antes que a velhice dizimasse qualquer pretensão corporal de eternidade.

Lá pelas tantas chegou o jipe da polícia que trazia o Cabo Carlão e o padre Bento. Um para dar o atestado de óbito, outro para confiar a alma a Deus, encomendação feita com o aspersório em breves espirros de água benta que foram estendidos a todos em redor, pecadores e pagãos. Ambos formavam a representação das leis e de Deus e do homem na comunidade. O cabo Carlão tinha a ajuda do soldado Taririnha nos labores legais numa sala da Associação de Moradores. O Pontão do Itapary não tinha cadeia nem cartório nem juizado nem catedral.

Por sua vez, o padre Bento fazia tudo sozinho, quando preciso era auxiliado por um coroinha dali mesmo. Executava os rituais da Santa Madre Igreja Católica na capela de santa Teresinha e partia para outras paróquias. As mulheres piedosas não perderam a ocasião e fizeram fila de joelhos para exigir bênção àquele emissário de Deus, que só aparecia no local para encomendar defunto. O padre Bento repassou as bendições que lhes foram delegadas pelo sacerdócio, o Cabo Carlão liberou o defunto para enterro e o corpo de Sebastião, aleitado na rede que balançava ao vento na varanda da casa, enfiado num pau entre dois ombros fez a última viagem rumo ao Cemitério do Paço do Lumiar.

Em lá chegando ainda tiveram todos de ouvir breve prédica apológica do Pastor Jeremias da Assembleia de Deus, após o que a preta Jurema em lágrimas vestida toda de branco e saião redondo cobrindo as pernas até o chão abençoou  o defunto Bastião impondo as mãos com os dedos entrelaçados recitando por três vezes de olhos fechados e gestos solenes: Moxoxu, Moxoxu, Moxoxu! Mais tarde os homens voltaram à casa cada qual com intenção de manter a tradição e tomar posse espontânea da herança do defunto. A moradia, era sabido, seria de Jurema, que encontrariam a postos no cemitério, como de fato ocorreu. Pois de imediato ao último amém da encomendação a negra já estava de volta a casa varrendo a poeira, arrumando a cama, dobrando as roupas do finado. Não ligou para os homens que invadiram os aposentos tomando posse de objetos masculinos.

Cada um escolheu a roupa que traria a lembrança do defunto até se esfarelar pelo tempo; outro pegou o copinho com que ele bebia a tiquira antes do banho, antes de dormir, ao acordar; mais um se apossou da TV de 10’ que Bastião assistia deitado na cama e esquecia ligada até de manhã. E assim cada qual se serviu, como costume, para tão cedo não esquecer o amigo – como rezava a tradição local. Na saída antes de botar o pé no chão, cada qual pegou uma gaiola e a varanda ficou vazia de passarinhos. Por que ficou uma só gaiola, isso que Zequinha queria saber. E viu por que: o passarinho, um canário da terra, estava morto.

Cheio de pena do bichinho inerte o menino tirou a gaiola do gancho, botou sobre a mesa e ficou ali com o queixo sobre as mãos olhando o passarinho de penas amarelo-ouro morto, arriado com as patinhas para cima, o corpo minúsculo assentado sobre a folha de jornal suja de cocô, restos de alpiste e painço bicado. De repente achou que tinha visto a asa do bichinho se mexer, mas julgou que era só impressão. Outra vez com os olhos atentos o garoto teve a mesma sensação:

– Tia Jurema, gritou, acho que o canarinho tá vivo!

Jurema chegou, olhou:

– Tá nada menino, é impressão tua.

Mas quando foi virando a vista para cuidar de outras coisas viu a asa do passarinho se mexer. Reparou com maior cuidado e disse:

– Peraí…

Foi lá dentro pegou meio copo d’água, misturou uma colher de vinagre, uma pitada de sal e encheu a boca com a mistura. Chegou bem perto da gaiola e deu uma forte borrifada sobre o corpo do canário:

– Pode deixar, se ele estiver vivo a gente vai saber logo, logo.

Zequinha aguçou os olhos na espreita. Viu aos poucos o passarinho renascer, com mais tempo já estava saltando para lá e para cá se pendurando nas varetas do entorno da gaiola:

– Tá vivo! Tá vivo, tia Jurema. Tá vivo!

Jurema veio e até que sorriu diante de tanta alegria do menino. Deu mais uma borrifada com o resto da mezinha que tinha preparado:

– Trata de botar água e comida pra ele: o que deu nele foi uma fraqueza, fome e saudade do Bastião. E disso iria morrer se tu não tivesse olho de carcará…

Sob o olhar complacente de Jurema, Zequinha tratou tudo com rapidez e afinco. Ademais trocou o papel sujo, limpou a gaiola, ficava estalando os dedos e assoviando para o canarinho. As penas de cor amarelo-ouro reluziam ante a claridade. Jurema viu que não teria tempo para dar tanta atenção e que cuidar de passarinho não era sua especialidade:

– Quer ficar com ele? Pois fica, pode levar, mas só se prometer tratar como Bastião cuidava.

– Prometo, tia prometo!

Zequinha e o canário da terra eram par inseparável na vila. Sempre que podia ele levava o passarinho à escola para ter o prazer de mostrar a beleza da cor das penas amarelo-ouro, assoviar até que ouvir como reação o canto trinado, mostrar como o canário reagia ao estalo dos dedos e como pegava alpiste direto na sua boca. Já era programa conhecido os passeios e encontros com meninos e meninas. Só o que ele não sabia é que dois dos amigos de Sebastião que foram ao enterro e saíram de mão abanando conspiravam para ter a posse do canário. E assim que encontraram Zequinha a sós de gaiola na mão ficaram de posse do passarinho na marra.

Zequinha se encolheu, meteu a cabeça entre os joelhos, chorou. Sentiu uma mão roçar sua cabeça:

– Tá chorando porque menino?

Zequinha levantou o rosto, era o Cabo Carlão. Ele contou a história tintim por tintim, como descobriu que o canarinho-da-terra estava vivo, como ele ganhou o canário – tudo poderia ser provado pela própria tia Jurema. O Cabo Carlão ouviu tudo, coçou o queixo, disse hum-hum, deixa que vou resolver isso já já. Ele sabia onde encontrar aquelas pessoas e foi direto para a Birosca do Almir. Lá chegando encontrou os dois bebendo e ainda discutindo sobre quem teria direito à posse do canarinho. Essa coisa quando começa assim sempre degenera em disputa. E em lugar onde a arma é a peixeira e não as palavras, o bafafá pode acabar em morte.

O Cabo Carlão não tinha esse nome à toa. Era um mulato enorme e seus bíceps foram reforçados em academia de ginástica, com direito a aulas de jiujitsu, capoeira e defesa pessoal. Era cabra valente, mas respeitador do direito alheio. Os moradores do Pontão do Itapary sabiam e acatavam sua coragem, determinação, força que vinha junto com a justiça salomônica: o Cabo Carlão já tinha se mostrado mediador de talento ao julgar várias pendências com justeza e equilíbrio. Por isso todos se voltaram quando ele entrou no botequim e atravessou a voz na discussão dizendo:

– Eu sei como resolver essa questão. Foi até à porta e gritou:

 – Zequinha venha cá. Repita pra todo mundo ouvir a história que me contou sobre o canarinho-da-terra. O que ocorreu com o canário, o que a Jurema fez e decidiu. Quero que cada um aqui presente ouça e seja testemunha, inclusive o proprietário, porque vou resolver essa questão que não terá recurso. Seu Almir chegue cá, me dê um minuto do seu precioso tempo.

Zequinha contou toda a história, de como tia Jurema salvou a passarinho de morte certa e como o fez prometer que daria ao bichinho o mesmo cuidado com que Bastião tratava, como se fosse parente, filho, família e de como ele, Zequinha, estava cumprindo o trato cuidando do canário da terra do mesmo modo dedicado e com amor.

– Portanto – interrompeu o Cabo Carlão pondo na voz todo o poder de autoridade – não tenho dúvida nenhuma de que o canário pertence a Zequinha. Ainda mais quando foram enterrar o Bastião, todos saíram com uma lembrança, eu tratei de manter a tradição. A gaiola do canário ficou abandonada lá porque o passarinho foi dado como morto. Ninguém se interessou em salvar o bichinho que estava se acabando era de fome e sede. Assim nem quero mais ouvir nem saber de alguém que queira tirar o canário da posse de Zequinha. Vá lá garoto e pegue a gaiola que lhe pertence e pode ir embora.

Zequinha se dirigiu ao balcão do bar onde estava a gaiola, estalou os dedos e assoviou para o passarinho. O canário indiferente à discussão permanecia em silêncio, mas quando ouviu a voz, o assobio, o estalido dos dedos do menino arrepiou as penas amarelo-ouro e de tempos em tempos passou a desencadear uma orquestração de múltiplos trinados, como se fosse ele só uma orquestra sinfônica inteira – proeza, como é sabido, que só o canarinho-da-terra consegue realizar.

Rio de Janeiro, Cachambi, 19 de novembro de 2016.

de poeta pra poeta

vinicius-e-mario

Mário de Andrade e Vinicius de Moraes eram amigos e poetas. Pode parecer fortuito dizer isso, mas não para quem eleva a amizade a um patamar tão alto como santificação fosse. Mário de Andrade foi assim: comprova a imensa carga emotiva e espontânea com a qual carregou a volumosa correspondência cuja importância se iguala à sua obra.

Vinicius de Moraes, por outro lado, em pleno século 20 viveu a vida dos verdadeiros poetas, herança deixada pelos colegas românticos. Os dois pensavam e caminhavam, igual e desigual, cada qual na estrada libertária da cultura que escolheram percorrer.

Mário de Andrade trespassava cordilheiras indo do mundo clássico ao extremo do culto popular, casual, pé no chão. Vinicius de Moraes também saltitava o jogo da amarelinha vagabundeando entre a perfeição dos sonetos e o samba rasgado, a canção amorosa medieval, as brincadeiras infantis. Ambos, portanto, eram amigos, poetas e irmãos – qualquer ruptura que ocorresse nessa convivência derramaria lágrimas de profunda incompreensão ante a tragédia.

Foi assim que a morte súbita de Mário de Andrade pegou o amigo Vinicius de Moraes – como a todos os demais – desprevenido de sentido. A reação se fez imediata com o poema “A manhã do morto”. E alguns anos depois nova reação se deu e de novo Vinicius de Moraes se lançou ao papel para escrever “Exumação de Mário de Andrade”, no 17º ano da sua morte e no 40º do seu nascimento, na Semana de Arte Moderna. São essas duas manifestações, ou lamentações, que vão transcritas aqui, de poeta para poeta.

A MANHÃ DO MORTO

Vinicius de Moraes

O poeta, na noite de 25 de fevereiro de 1945, sonha que vários amigos seus perderam a vida num desastre de avião, em meio a uma inexplicável viagem para São Paulo.

Noite de angústia: que sonho
Que debater-se, que treva…

··… é um grande avião que leva amigos meus no seu bojo…
…depois, a horrível notícia:
FOI UM DESASTRE MEDONHO!

A mulher do poeta dá-lhe a dolorosa nova às oito da manhã, depois de uma telefonada de Rodrigo M. F. de Andrade.

Me acordam numa carícia…
O que foi que aconteceu? Rodrigo telefonou:

MÁRIO DE ANDRADE MORREU.

Ao se levantar, o poeta sente incorporar-se a ele o amigo morto.

Ergo-me com dificuldade
Sentindo a presença dele
Do morto Mário de Andrade
Que muito maior do que eu
Mal cabe na minha pele.

Escovo os dentes na saudade
Do amigo que se perdeu
Olho o espelho: não sou eu
É o morto Mário de Andrade
Me olhando daquele espelho
Tomo o café da manhã:
Café, de Mário de Andrade.

A necessidade de falar com o amigo denominador comum, e o eco de Manuel Bandeira.

Não, meu caro, que eu me digo
Pensa com serenidade
Busca o consolo do amigo
Rodrigo M. F. de Andrade

Telefono para Rodrigo
Ouço-o; mas na realidade
A voz que me chega ao ouvido
É a voz de Mário de Andrade.

O passeio com o morto
Remate de males

E saio para a cidade
Na canícula do dia
Lembro o nome de Maria
Também de Mário de Andrade
Do poeta Mário de Andrade.

Gesto familiar

Com grande dignidade
A dignidade de um morto
Anda a meu lado, absorto
O poeta Mário de Andrade
Com a manopla no meu ombro.

Goza a delícia de ver
Em seus menores resquícios.
Seus olhos refletem assombro.
Depois me fala: Vinicius
Que ma-ra-vilha é viver!

A cara do morto

Olho o grande morto enorme
Sua cara colossal
Nessa cara lábios roxos
E a palidez sepulcral
Específica dos mortos.

Essa cara me comove
De beatitude tamanha.
Chamo-o: Mário! ele não ouve
Perdido no puro êxtase
Da beleza da manhã.

Mas caminha com hombridade
Seus ombros suportam o mundo
Como no verso inquebrável
De Carlos Drummond de Andrade
E o meu verga-se ao defunto…

O eco de Pedro Nava

Assim passeio com ele
Vou ao dentista com ele
Vou ao trabalho com ele
Como bife ao lado dele
O gigantesco defunto
Com a sua gravata brique
E a sua infantilidade.

À tarde o morto abandona subitamente o poeta para ir enterrar-se.

Somente às cinco da tarde
Senti a pressão amiga
Desfazer-se do meu ombro…
Ia o morto se enterrar
No seu caixão de dois metros.

Não pude seguir o féretro
Por circunstâncias alheias
À minha e à sua vontade
(De fato, é grande a distância
Entre uma e outra cidade…
Aliás, teria medo
Porque nunca sei se um sonho
Não pode ser realidade).
Mas sofri na minha carne
O grande enterro da carne
Do poeta Mário de Andrade
Que morreu de angina pectoris:
Vivo na imortalidade.

In ANTOLOGIA POÉTICA, Rio de Janeiro, Ed. A Noite, 1954

*********

EXUMAÇÃO DE MÁRIO DE ANDRADE

Vinicius de Moraes

No 17º ano da sua morte e no 40º do seu nascimento na Semana de Arte Moderna

Minha casa de Saint Andrews Place.
Duas da manhã. Abro uma gaveta
Com um gesto sem finalidade
E dou com o retrato do poeta
Me olhando, Mário de Andrade.

Seus olhos nem por um segundo
Piscam. O poeta me encara
E eu vejo pela sua cara
Que o poeta quer ser exumado
Daquela gaveta, desde muito.

Tiro-o de lá. Com mão amiga
Limpo a poeira que lhe embaça
O rosto e suja-lhe a camisa
E o poeta como que acha graça.

Busco um lugar onde instalá-lo
Na minha pequena sala fria
Essa sala tão sem poesia
Onde me encontro todo dia
E onde me sento e onde me calo.

Mas não acho. Ponho-o à minha frente
Sobre a mesa, sentindo a vertigem
Da sensação da forma virgem
Que assume de súbito o ambiente.

No papel branco palpitante
Das moléculas da poesia
A minha mão psicografa
O antigo nome de Maria.

E na sala transverberada
Pelo mistério da presença
Vai se corporificando imensa
A humana forma macerada.

Não tenho medo; mas meus pêlos
Se eriçam, na barba e no braço
Sinto pesar o puro espaço
Às mãos do poeta em meus cabelos.

Depois o toque cessa. Deixo
O poeta a gosto, para que ande
Por ali tudo, esmiuçando.
Depois ouço o som do piano
E olho: só vejo a vasta fronte
Os óculos e o queixo grande
Do poeta, se desincorporando.

E fico só: só como um vivo
Cheio de angústia e de saudade
E corro à porta, e olhando aflito
O silêncio, murmuro empós o bom amigo:
– Volte sempre, Mário de Andrade…

Los Angeles, outubro de 1946 – Petrópolis, fevereiro de 1962

In POEMAS ESPARSOS, São Paulo, Cia. das Letras, 2008

 

O cachorrinho sorriu

beagle

Nando chegou atrasado à escola. Mal comecei a explicar à professora-tia o motivo do atraso, colegas se juntaram ao redor dele para ouvir a história. Exclamações, gritos excitados de admiração, volta e meia se virava para mim:

– Não foi vovô? – para corroborar os fatos. Nando era bom para contar uma história. Hoje – e até quanto durar a lembrança – ele será mais popular, o herói. O colégio até que não fica longe. É apenas um quarteirão, mas com dois sinais de trânsito, um deles colocado num ponto cego aos pedestres, por isso é perigoso.

Tem aquela placa típica próxima às escolas, que figura os meninos atravessando a faixa, mas era advertência inútil. Fazemos o percurso todos os dias, sabemos o segredo para evitar um atropelamento, mas a maioria desconhece: há pouco tempo uma aluna e a avó foram atropeladas. Foi de pouca gravidade, mas as escoriações e luxações demoraram meses para desaparecer. Era um aviso: Cuidado! Motoristas irresponsáveis!

Hoje saímos próximo da hora da entrada, assim optamos por esse caminho, que desemboca na porta lateral e dá acesso direto às salas dos cursos básicos. Quando há tempo seguimos o percurso mais longo que vai direto à entrada principal, tem apenas uma travessia de pedestre e se usa a mesma calçada. A meio caminho cruza um beagle de pelo marrom, retângulo branco na cabeça e coleira de couro branca. Menino e cão têm atração direta, inevitável, brincam, correm pra lá e pra cá. Pouco antes do sinal segurei firme na mão de Nando, preparando a travessia, que tinha que ser oportuna e rápida.

– Nando, vamos atravessar. Com o alerta ele sabe dos passos rápidos, de correr e só parar quando estiver seguro no outro lado. E assim foi. Vigiando os veículos, na primeira brecha corremos, mas de repente – surpresa – o cachorrinho, que tinha ficado quieto na outra calçada, de repente correu aos saltos em direção a Nando. Em fração de segundos o cachorrinho saltou latindo sobre as pernas de Nando.

Ato contínuo uma motocicleta cortou o automóvel por trás e o choque foi inevitável. Eu ia à frente garantindo a chegada a salvo do outro lado. Consegui, mas Nando se virou rápido em puro reflexo, puxou o cachorrinho pela coleira e saltou para a calçada, mas não evitou que o para-lama da moto atingisse o animal. Com a pancada o bichinho arriou no chão ganindo o choro dos machucados. Logo o deitamos na calçada para avaliar o machucado e vimos que o dano não foi grave: a moto atingiu a coxa traseira. A dor impedia qualquer movimento. Por instinto ele tentou andar, levantando-se pelas patas dianteiras, mas arriou de novo ganindo.

Nando tinha completos sete anos. Ele ficou em prantos, mas não se desesperou, estava consciente do que fazer e isso me deixou admirado. Crianças que passavam para a escola sempre davam uma olhadinha para saber do acontecido. Nando ficou de cócoras para proteger o cachorrinho, massageava a pata machucada, como quem quer amainar a dor que ambos sofriam. Por fim, Nando levantou os olhos para mim:

– Vovô, rápido! Tem um veterinário bem ali!  Vamos!

O pedido era mais ordem que outra coisa, mas era também a atitude correta que o momento impunha. Urgia atender àqueles olhos úmidos. Coisas assim costumam ficar na cabeça das crianças por muito tempo, portanto, tem que se fazer a coisa certa.

A cem metros, de fato, estava a Veterinária Bichinho (parada inevitável para as crianças), onde se tratava e vacinava animais. Peguei o cachorrinho nos braços e corri em atenção ao clamor de Nando. Ia atrasar a escola, mas o importante agora era medicar o cãozinho (que não parava de ganir se lamentando) para livrá-lo da dor e do sofrimento. Chegando lá expliquei o ocorrido e o veterinário logo começou o exame, apalpando o corpo, a parte atingida.

Chamou-nos para segurar firme o animal e num gesto rápido moveu a perna machucada para cima. O cachorrinho soltou um uivo de dor, os ganidos aumentaram, fazendo Nando sofrer, mas dessa vez não chorou. Logo depois o médico aplicou uma injeção, os ganidos foram diminuindo, por fim o cão parou de gemer. O veterinário o acomodou sobre um tapete, isso feito veio nos explicar:

– Não foi grave, apenas o deslocamento da coxa traseira, o choque rompeu a junção, saiu do lugar. Dói muito e impede o bicho de se mover. Agora ele fica em observação, dormindo, se alimentando, para se recuperar. No fim do dia o senhor retorna para se informar.

Agora Nando cercado de colegas explica o ocorrido, fantástico e excepcional acontecimento para olhares curiosos e ouvidos atentos. Despedi-me da professora-tia, que foi se juntar ao grupo, percebendo no fato, motivo imperdível para incrementar as atividades do dia. Por muito tempo aquele episódio vai correr ouvido a ouvido, boca a boca, animando a imaginação inexaurível que rodeia e preenche, dia e noite, a mente das crianças.

Às cinco da tarde peguei Nando na saída da escola. Ainda ecoava a voz, agora em pedaços, do drama. No recreio a notícia se espalhou pelas outras turmas, aumentando a fama do herói Nando. Mas o que ele queria mesmo era seguir logo para o veterinário, razão dos muitos puxões que deu no meu braço e das súplicas autoritárias:

– Vamos vovô! Vamos logo vovô! – Chegando lá o veterinário nos recebeu sorrindo e apontou para o leito em que o enfermo estava alojado.

Sentada ao lado do cão, que era só carinho e afeto, estava uma menina da mesma idade de Nando. O cachorrinho era outro, mesmo de perna enfaixada, o brilho, a alegria enchia os seus olhos. Não cansava de lamber as mãos da menina, morena, olhos negros e cabelos longos. Eu já a tinha visto na aula de natação. Sentada numa cadeira ao lado estava a mãe de Marina – esse era o nome da menina – sorrindo agradecida pelo que fizemos.

Nando correu para ver o cachorrinho. Foi logo reconhecido, passou a mão na cabeça e recebeu lambidas de volta. Olhou a menina, mas logo a reconheceu e soube que era a dona do cão. Num instante estavam conversando:

– O nome dele é Blóbi. Saiu de casa num momento de distração nossa.

Nando não deixou por menos: cortava as palavras de Marina com passagens de seu ato de heroísmo. Assim contou a ela, timtim por timtim, toda a história. Até que não exagerou muito! Logo estavam muito amigos.

Eu e a mãe da Marina conversamos, dando tempo para que as crianças se acalmassem da natural agitação. Depois de algum tempo, ela consultou o veterinário e soube que Blóbi iria hoje mesmo para casa e depois voltaria por conta de fazer exames. Durante as despedidas Nando tomou a iniciativa e fez Marina prometer deixá-lo visitar Blóbi. Longos e intermináveis foram os carinhos, as palavras, os afetos que Marina, Nando e Blóbi trocaram. Por fim, dando um último abraço em Marina, outro mais demorado em Blóbi, Nando se deixou soltar. Saímos.

– Você viu vovô? Você viu? – Nando disse com a voz embargada pela emoção – Você viu vovô?

Tentei acalmá-lo: – O quê? O que foi?

– Na hora que cheguei e agora, quando dei adeus… Você viu vovô? Você viu? O cachorrinho riu! O Blóbi sorriu pra mim!

Durante todo o trajeto para casa, Nando não cansava de repetir, para o céu, para as paredes, para os coleguinhas, para as pessoas, para as árvores:

– Blóbi sorriu! O cachorrinho sorriu!

 

Cobras: Crônica dos tempos valentes

Essa história quem contou foi o primo Quincas Oliveira, que não me deixa mentir, pois está vivinho da silva, acomodado lá pelas bandas de São Bento, cidade pacata da baixada maranhense, lugar de apreciadas peixadas, tiquiras esplêndidas, um moka de grande respeito e tapuiranas de algodão, leves e macias como as nuvens que o Senhor guarda no Paraíso. Quincas – aliás, Dr. Quincas, diplomado pela Faculdade de Direito da Ilha Rebelde e juiz de comarca – costuma descansar das querelas legais no sítio do amigo e compadre Moutão Cerejo. Hoje pode se dizer que é um sítio, mas já foi fazenda e das maiores.

O velho Moutão mal ficou viúvo resolveu adiantar-se ao tempo e logo repartiu os catorze mil hectares entre herdeiros, separando para si este cantinho onde poderia criar poucas reses, bodes e carneiros. Ali ficava a velha casa senhorial de cumeeira baixa, paredes largas rebatidas com taipa, portas e janelões que deixavam a brisa fresca invadir pacífica todos os recantos da morada. Além do mais era toda alpendrada, exceto na parte de trás onde ficava a cozinha, o fogão de lenha, a despensa e os cômodos para serviçais e empregados. Pegou tudo para si, antes que alguém mais afoito com a modernidade decidisse pôr tudo abaixo. Ademais, era o lugar ideal para pendurar as tapuiranas, receber os amigos e desfrutar o restante da vida como um anjo imaculado.

Agora estavam os dois amigos justo descansando do almoço seguido de café preto, retinto, moka colhido dos pés centenários escondidos debaixo da mata atlântica que se eterniza em estado de natureza pura ao derredor da Lagoa da Sororoca. Repousavam em silêncio, sesteando ao ritmo do rangido dos penduradores matutando sobre as delícias do muçum frito, arroz de vinagreira, molho de pimenta feito na calda da cabeça do peixe, que acabaram de desfrutar. Cada qual modorrava estirado numa rede, das quais só se via subir a fumaça azulada do fumo sergipano.

Moutão costumava deixar uma perna para fora da rede e com as pontas dos pés harmonizava o balanço ao ritmo dos berços de bebê. Às vezes ressonava leve, deixando que a cinza do charuto caísse sobre o peito peludo, outras vezes o charuto apagava, ficando esquecido entre os dedos amarelados pela nicotina. Na outra rede onde Dr. Quincas deitou o corpo saciado não se via nenhum movimento: as varandas ornamentadas com motivos dos pássaros locais, arriadas quase até o solo, só se mexiam ao sopro da brisa, a fumaça azul da cigarrilha se perdia no rumo do teto.

A modorra iria até o pôr do sol, quando o cheiro de bolos, cafés e assados acendesse de novo o apetite para a janta. Mas, como o ruído de um copo que cai ao chão, o silêncio foi quebrado com a chegada do vaqueiro Zifirino. Moutão e Quincas ouviram o leve tropel do cavalo e logo deram com a silhueta do Zifirino vista de longe chegando a galope. O campeiro travou o freio cravando os cascos do cavalo no chão erguendo poeira. Depois de acomodar o Tordilho debaixo da mangueira, onde podia descansar, beber água e comer milho, caminhou no rumo da casa. Trazia pendurada no pescoço, a modo de cachecol, uma cobra enorme. Tirou o chapéu para os cumprimentos de praxe, o corpo suado refletia a marca cruel da labuta diária.

– Tarde, patrão! Boa tarde, Dr. Quincas!

Ambos responderam ao cumprimento, mas logo em seguida reinou o silêncio reprovador. Moutão somente com o jeito de olhar pedia explicações. O próprio Zifirino chegava pronto para esse desafio, pois bem conhecia o patrão faz décadas, desde quando herdou do pai o cargo de vaqueiro e foi promovido a capataz. Se não fosse por necessidade extrema, matar bicho do mato ali era proibido e decerto tinha de arrumar desculpa bem boa para não aborrecer o patrão. Zifirino tirou a bichona dos ombros, mal aguentando o peso. À distância dava para ver que a cobra media mais de três metros, bem quatro, se duvidasse.

– Veja patrão, a baita surucucu que tive de sacrificar. Zifirino esticou a serpente com os dois braços abertos para mostrar o gigantismo da surucucu. A cauda e a cabeça penderam nas extremidades.

– Quem mandou? A pergunta ressoou como um estalido na tarde seca. Meia dúzia de pipiras que vasculhavam o alpendre em busca de farelos, arrematou voo ante o tonitruante som da palavra de Moutão. Dr. Quincas pigarreou sopesando a situação.

Os cachorros, atraídos pelo cheiro de sangue e carne, de imediato cercaram Zifirino em arruaças, saltos e latidos, querendo abocanhar a caça preciosa. O vaqueiro acariciava a cobra pelo corpo todo, admirando a coloração do couro, as manchas marrons, quase negras, que contrastavam com losangos amarelo-ouro e a barriga pintada de bege esmaecido, mas que ardia nos olhos quando reluzia ao sol.

– Porém patrão, de antecipado tive o pudor de certificar o quê era esta bicha, apurei bem as intenções dela. Visto essa parte, até o patrão sabe que em sendo surucucu ou jararaca é difícil prever boa atitude. O que existe na alma delas é maldade pura, nada mais, nenhuma bondade. Vi logo pelas manchas que não era muçurana. Ela tem a cor do chumbo, é negro-azulada, tem a barriga branca, mas não tem peçonha. A muçurana devora com facilidade a surucucu, a cascavel. É de pegar a cobra nos dentes fortes, se enrosca rápido, vai arrochando, arrochando, engole e pronto: está alimentada. Mas esta aqui – lascou uma palavra feia – esta aqui não tem jeito.

– Quem deu ordem? Os olhos de Zifirino se arregalaram um pouco demais assustado com a veemência do questionamento. Deu para ver o corpo tremular, até balançar um pouco, mas ele logo aprumou os pés, de novo acoitado na coragem com que era conhecido. – O seu pai não lhe ensinou? Dr. Quincas levantou-se da tapuiranas e chegou mais perto do amigo para reforçar apoio. – Hem-hem… Hum-hum…

– Verdade, verdade, patrão, mas quem primeiro atacou a surucucu foi o Tordilho, não eu. É verdade! Eita bicho bom! Não troque nem venda ele por nada desse mundo, patrão! Antes, pode se orgulhar de ter uma montaria como essa! Eu conto como foi, já, já. Eu tava fazendo aquela ronda diária pra saber da saúde do plantel, pra contar as reses, pra ver algum bezerro ou cabrito parido de recente, pra curar alguma bicheira, um lanho provocado por tiririca ou briga de machos – sempre acontece, né?

Ao ouvir seu nome, o Tordilho relinchou, bateu os cascos dianteiros, sacudiu-se para lá e para cá repetidas vezes, cavoucou tanto a ponto de levantar poeira do chão.

– Foi na beira da lagoa, não foi? Moutão sabia que Zifirino não era capaz de matar qualquer bicho só por matar. Algo ocorreu, alguma coisa que ele não pôde evitar, inda mais sabendo da inevitável admoestação que receberia. – Se mire na atitude de seu pai, que não pisava numa saúva, não matava uma mosca sem ordem!

Zifirino enquanto arrumava a narrativa na cabeça, tirou da bainha uma faca de caça. O reluzir do aço Solingen cintilou gélido como um raio. Pelo risco do fio, mesmo à distância, dava para ver que o corte da faca era igual navalha. Zifirino pegou a surucucu pela cabeça, levantou o máximo que pôde com o braço esticado para o alto, enfiou a ponta da faca abaixo da mandíbula e com uma fisgada vigorosa levou o talho até o rabo da bichona.

– Numa olhada só, patrão, contei três novilhos e seis cabritinhos pastando bem perto. Tudo novinho e saudável, cada qual vigiado de perto e protegido pelas matrizes.  Mas pra bote de surucucu não tem defesa nem proteção que dê jeito. Bom, bom, fui assim, arrodeando pra lá e pra cá, de olho aberto, como sempre faço. Acredite patrão, num sabe Dr. Quincas, nem precisava dar direção, nem mostrar como fazer o serviço: o Tordilho fazia tudo sozinho… Eita bicho bom de campear!

– A surucucu mora bem ali mesmo na Lagoa da Sororoca. É ela quem vigia a água, a praia, a chuvarada, mesmo quando tudo vira um pântano só. Moutão não deixava brecha para Zifirino crescer: dar voz a peão é o mesmo que dar asas a cobra. Bateu a cinza do charuto e deu uma longa baforada, formando uma nuvem azul e cheirosa. Então?

Zifirino respirou fundo, aguentou a reprimenda, mas não cessou o labor com a cobra. Voltou parte dela para o ombro e com a eficiência da Solingen apartou por dentro toda a cabeçorra, sem um mínimo dano ao couro. Separados carne e couro, Zifirino libertou a parte de cima e foi puxando de com força – a pele da surucucu foi se soltando como um esparadrapo, de cima a baixo, até parar no falso chocalho da ponta do rabo. Depois Zifirino cortou a carne da cobra em grandes pedaços, repartiu entre os cachorros, que avançaram como feras para o petisco. A melhor parte, carne fresca e reluzente, Zifirino partiu ao meio e guardou no alforje.

– Bom, bom, patrão, estava já por dar a ronda por encerrada e vinha correr pra contar as novidades, quando o Tordilho bufou três vezes mostrando os dentes e cravou as patas no chão. Isso é mau sinal, indicativo de alerta. Nessas horas é bom seguir o instinto e não contrariar a montaria, como muitos fazem. Apurei a vista pra localizar o quê Tordilho viu e eu não vi: olhei prum lado, vasculhei por outro, controlei o cavalo no punho, firmando o cabresto, acariciando o pescoço.

A cada admoestação – Dr. Quincas Oliveira bem que reparou – o peito de Zifirino arfava estufado de raiva. O chicote de couro batia na perneira num rito nervoso, impaciente. Parte da comunicação entre as gerações se esfarelava ao vento e Zifirino estava uma geração à frente do pai, humilde, obediente, subjugado ao poder sem lei – os tempos mudaram. Por isso, Dr. Quincas ficava atento aos gestos mais mínimos, percebia o tremor que feria o sentimento de Zifirino, mas por princípio se abstinha de intervir.

– Essa surucucu é cobra serena, de vigiar o pedaço, só faz mal a quem ataca. Moutão resmungou, lutando para manter a autoridade, que não delegava. Trazia essa regra herdada dos pais, avós e bisavós, sempre tendo em mente nunca aceitar que façam algo sem ordem expressa. É perigoso. Assim nascem as revoluções. Mas também tinha consciência de que Zifirino não era igual ao pai. Estudou, tirou diploma de técnico veterinário, era ambicionado por outros fazendeiros.

Dava para notar que Moutão Cerejo e Dr. Quincas Oliveira estavam tensos, mas concentrados na história. Zifirino, por seu lado, examinava com maior cuidado a cabeça da cobra, cavoucando as mandíbulas com a ponta da Solingen aqui e ali até expor duas pequenas bolsas guardadas nas laterais da goela. Cada uma daquelas ampolas armazenava boa quantidade de um líquido leitoso, amarelado. Era a peçonha – uma pequenina gota daquele fluido circulando pelo sangue mata em poucas horas mesmo o cabra mais forte.

– Olhe aqui, patrão, olhe Dr. Quincas – disse em tom exclamativo e expôs a cabeçorra à vista dos ouvintes atônitos, de olhos arregalados, admirados com a quantidade da toxina tão perto deles. – É aqui que ela guarda o veneno, antes de injetar na vítima. É tanta peçonha que dá pra derribar um búfalo, quanto mais um cavalo, um novilho, um homem! Com todo cuidado Zifirino separou as glândulas da carne, embrulhou num saquinho, guardou em outra partição do alforje.

Aproveitando a pausa que Zifirino oferecia com esses procedimentos que tinham de ser feitos de imediato Moutão acendeu outro charuto, Quincas foi lá dentro pegar o bule de café que se mantinha quente em cima da chapa do fogão. Trouxe também três canecas, que serviu para si, para o amigo Moutão e outra que deu ao vaqueiro, encerrando a animosidade aparente.

– Zifirino, tome aqui um cafezinho. Zifirino se aproximou, pegou a caneca e deu uma golada, estalando a língua. Um café assim, quente e forte, bebido em conjunto, é capaz de apaziguar a maior desavença e levantar qualquer desânimo. Para Zeferino só faltava acender um charuto daquele fumo sergipano para arrematar o prazer.

– Obrigado Dr. Quincas, só o senhor sabe como chega bem esse café numa garganta seca! Zifirino repetiu ainda mais dois sorvos com tanta vontade, como se estivesse num deserto morrendo de sede. – Obrigado Dr. Quincas, obrigado patrão.

Continuando o trabalho com a serpente entre uma frase e outra, Zifirino agora descarnava a cabeçorra da surucucu. Cavoucou cuidadoso e exemplar, como um médico cuida de operar o bisturi, um artista que manobra a faca Solingen, como um gênio toca seu violino. Por fim separou o couro da ossada, guardou tudo no embornal para que nenhum cão assumisse o risco de morte que a cabeça trazia, guardada ainda muita peçonha em suas veias.

– Bom, bom, patrão, Dr. Quincas, foi aí que reparei numa moita de colonião, debaixo da sombra, o primeiro sinal da cobra. Assim de repente não deu pra saber se era cascavel, surucucu ou mesmo uma boiúna. Descartei logo a cascavel, porque o guizo não denunciou – é a primeira coisa que a cascavel faz, vaidosa como quê! Mas logo a surucucu se empinou em posição de ataque, a bichona estava a dois, três metros da gente, assim sem delongas – vupt! O Tordilho saltitou pro lado, pro outro, empinou os cascos dianteiros, martelando entre si – toc, toc, toc, toc – a luta mal começou e acabou o sossego!

Antes que o patrão recomeçasse o carão, Zifirino emendou a narrativa: – A surucucu estava bem ali na frente de nós, patrão, bote armado e pelo tamanhão o senhor vê que o alcance é longo! O alvo era sem dúvida o pescoço do cavalo! Pois Tordilho já tinha prevenido tudinho, valente, rápido como um raio, empinado nas patas traseiras, cruzava os cascos, como escudo e navalha, defendendo-se e atacando a serpente. Eu jogava o cabresto prá lá e pra cá no ritmo da refrega, no comando do ataque. O retinir da ferradura era música, vapt-vupt pra lá, juque-juque pra cá, os cascos eram navalhas. O tempo corria, quase meia hora, pois em certeira arremetida, Tordilho acertou de cheio a cabeça da malvada. Não tinha outra vez, era aquela e só! A surucucu, ferida de morte, rápido se esgueirou de banda, sumiu entre as touceiras.

Zifirino raspou as sobras de nervo e carne, pegou o couro por inteiro, abrindo-o de lado a lado. Era uma verdadeira peça de arte – Moutão e Quincas reconheceram logo a pintura, mirando um para o outro, esbanjando aquele olhar cúmplice de satisfação. Zifirino estendeu o couro todo, de jeito tal que o desenho das manchas se reproduzia espelhado lado a lado, como nas asas das borboletas, como nas pedras preciosas – a esmeralda verde! O sol já descaindo no horizonte abrilhantava mais ainda o espetáculo. Nesse instante Moutão Cerejo perdeu a fala, mas deu para ouvir o Dr. Quincas respirar fundo.

– Apeei do Tordilho mode seguir a trilha de fuga que a maldosa empreendeu, achei ela uns metros adiante, encolhida como uma minhoca, vencida e lerda, pronta pra esperar a morte. Os cascos do Tordilho fizeram um estrago grande, patrão, quase deceparam cabeça fora por completo, bem aqui, olhe. Fiquei cara a cara com a bichona e quando ela me viu os olhos cintilaram de ódio. Mas tinha também um tanto de piedade – não sei se era eu que via isso em respeito à valentia da surucucu – achei que não trazia mais aquela maldade assassina, de quando deu o bote mortal no Tordilho. Agora, ao contrário, arriava a cabeçona no chão, pedindo fim ao sofrimento.

– Mas eu mandei Zifirino? Eu mandei? Moutão, refeito da emoção, só reclamava agora por teimosia. Não havia nada a condenar no que fez Zifirino e tinha por conta que houvera de perder um ou dois novilhos e cabritos se aquela surucucu alcançasse as reses. Então, a ação do vaqueiro economizou algum prejuízo que ele teria. Neste momento seus olhos estavam enfeitiçados pela beleza do couro.

Os tempos mudaram, velho, os tempos mudaram – Zifirino resmungava inaudível ao vento, olhar preso no chão empoeirado. O urro das palavras do velho Moutão rasgava o ar de lado a lado enroscando nos ouvidos, perdia-se abafado pelo ladrido dos cães enfurecidos no terreiro, disputando as sobras da carne que Zifirino distribuiu.

– Na verdade patrão, na verdade quando tudo aconteceu, momento agitado, não dá nem pra pensar nada. A minha cabeça se voltou direto pra proteger o patrão, a riqueza do sítio, a vida das reses. Me lembrei do finado Dr. Zeca Pinto, vizinho, amigo muito chegado ao patrão e ao Dr. Quincas, num sabe? O senhor se lembra Dr. Quincas? Meu pensamento foi direto, guiado por Deus, pro que aconteceu ao finado Zeca Pinto. Ele não tinha o mesmo jeito que o patrão tem de se deitar na tapuirana? Trocando o charuto pelo cachimbo, não tinha o mesmo gosto de pitar um fuminho depois de traçar um muçum farto e beber um moka bem preto? Tinha sim o mesmo sestro de balançar a rede com a perna de fora, pra lá, pra cá… Tinha sim.

Mais uma vez Zifirino usou os dois braços para exibir o couro que tinha acabado de descarnar, voltando para o sol o lado que iria curtir. Era, sim, uma beleza! Uma maravilha que deixou Moutão Cerejo e Quincas Oliveira de olhos arregalados, presos ao cintilar da pele da cobra que reverberava ao sol poente. Um olhava para o outro e aquele olhar dispensava palavras. – Que couro! Que couro! Era só o que pensavam.

– Pois num tava o finado Zeca Pinto assim como o patrão e Dr. Quincas sesteando na tapuirana o almoço farto? Tirando um pito do cachimbo debaixo do cajueiro? Só que, diferente do patrão, o finado Zeca Pinto levava de quebra um litro de tiquira, que ficava a bicar hora e vez, lembra Dr. Quincas? Pois não é que tava ele assim derreado, com a perna de fora balançando a rede, quando passou ali perto uma jararaca caçando pra matar a fome e sentiu na perna do Zeca Pinto um petisco? Foi como um raio – vupt! Zeca Pinto recolheu a perna num zás, mas aí já era tarde, o estrago tava feito, num lembra Dr. Quincas?

– Zifirino! Moutão gritou como se tivesse sentido a virulência da picada na própria perna. A lembrança do finado amigo Zeca Pinto também mexeu com ele, deixou sequelas. – Deixa pra lá! Deixa pra lá! Já entendi! Já entendi! Mas que seja a primeira e última vez, viu Zifirino? A primeira e última vez! E ponha reparo: logo depois que esse couro tiver curtido e seco você me traz ele aqui, que eu quero ver e mostrar para o Dr. Quincas, viu?

Dando por encerrada a desfeita, Zifirino se dirigiu rumo ao Tordilho resmungando infeliz. O couro! A pele da surucucu! O seu couro! Apertou o resto da surucucu ao peito: a pele era também do Tordilho, que foi quem fez tudo. Zifirino caminhava e pensava e resmungava, às vezes em voz alta, como um urro de suçuarana. Mas também trazia contentamento no íntimo: na presunção de uma picada de jararaca ou surucucu, conseguiu pôr ao chão a fortaleza que era Moutão Cerejo, mesmo com todo o adjutório do Dr. Quincas Oliveira.

– Juro patrão – Dr. Quincas sabe que não minto – eu só pensei no patrão, com a perna balançando pra fora da rede, vai-e-vem, vai-e-vem que nem um bercinho de bebê, na modorra da tarde. Só me veio na cabeça o Dr. Zeca Pinto, sesteando que nem o patrão, derreado com a perna de fora balançando, sem sequer sonhar que ali no seu destino estava escrito a jararaca amaldiçoada. Foi só isso, patrão, pois trago sim, patrão, trago a pele curtida sim!

Zifirino montou o Tordilho de um salto e só com as rédeas, sem usar esporas, principiou a trotear de volta pra casa. O couro da surucucu não saía de seu pescoço. Os cachorros fizeram festa de despedida em volta do cavalo, correndo, latindo e saltando de alegria.

– E ainda mais, Zifirino: dê a metade dessa carne que você tem aí no alforje pra Benedita fritar. Eu e o Dr. Quincas vamos comer ela com farinha d’água na janta daqui a pouco, a pus de tirar gosto da cachacinha que haveremos de beber em homenagem à valente surucucu que você mais Tordilho enfrentaram. É verdade sim: valente que nem ela não tem.

O Dr. Quincas Oliveira, que não era de abandonar as intrigas de nenhum amigo, reproduziu a fala com outras palavras: – Isso mesmo Zifirino, não foi maldade o que você fez, não. Não foi mesmo! Nem carecia de ordem, dada a premência dos fatos! E com essa metade de carne que a Benedita vai fritar, eu e o Moutão vamos celebrar o heroísmo do Tordilho e a valentia de todas as surucucus do mundo, com a melhor farinha d’água e a melhor aguardente d’além-mar!

O sol se espreguiçava sumindo bem longe das varandas. Moutão Cerejo e Quincas Oliveira foram lá dentro fazer necessidade e na volta trouxeram o velho litro de Conhaque Macieira, cuja fórmula é protegida nos porões das vinícolas de Bombarral desde 1885 pelos descendentes de José Guilherme Macieira. O vasilhame de rótulo roído pelo tempo, guardado a quatro chaves por Moutão Cerejo, só dispara o estampido da rolha quando de comemorações assim.

Os amigos renovaram o caneco de café preto, desta vez acompanhado de um bom grogue do conhaque. Acendendo cada um o seu fumo, voltaram a se derrear na tapuiranas, a vista presa na vermelhidão cinzenta que costuma anteceder as noites serenas de São Bento. Lá de dentro recendeu o cheiro aromático da carne frita no óleo de coco babaçu…

Rio de Janeiro, Cachambi, julho/agosto de 2013.

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