Salomão Rovedo: Um conto, uma história

Literatura & Arte

Fernando Melo: O escudeiro de Caíssa

Escudeiro

O tempo é aparente, como deve ser o tempo. Numa época em que éramos jovens, a mácula do idealismo nos sujou feio e forte: eu e Fernando Melo amávamos o xadrez. Mesmo distanciados geograficamente, compúnhamos uma equipe coesa, um time desses que se juntam em todos os quadrantes tendo como estatuto o amor pelo simples fazer. Jogávamos, escrevíamos, trocávamos ideias, fazíamos o tempo revirar de cabeça pra baixo, tudo em nome do xadrez. Eis que de repente, sem que algum bólido milagroso avisasse, veio-me a ideia de ir até João Pessoa, cidade que está no meu RG como quadra de nascimento. E também seria tempo da 10ª edição do Torneio Memorial Bobby Fischer, feito memorável de uma pessoa só: Fernando Melo. Se o tempo nos afastou por períodos, agora recompomos nossos conhecimentos, já os cabelos rarearam e trocaram de cor, mas a paixão pelo xadrez continuava correndo em nossas veias. Fui.

O próprio Fernando Melo dá a sua versão do acontecimento:

Mais de 40 anos – este é o tempo que o conheço sem nunca ter visto – se passaram e finalmente apareceu a oportunidade. Salomão Rovedo veio jogar o Bobby Fischer. Eu sempre admirei o poeta, que vive no Rio de Janeiro, terra de Machado de Assis, e sempre desejei conhecê-lo pessoalmente. Talvez esteja aí um bom exemplo para nunca se perder a esperança. Sabendo, como sei, que a vida é feita de momentos, acredito que essa foi a segunda mais forte alegria que tive nesse final de semana que passou. Conhecer e conversar com Salomão Rovedo é um privilégio. E ter a sua amizade é uma felicidade”.

Devo dizer com a maior sinceridade que a reciproca é verdadeira.

Fosse o encontro um solitário tête-à-tête a coisa poderia se tornar melodramática, mas o evento reuniu centenas de pessoas, diluindo as emoções do encontro. De qualquer modo, foi o maior sucesso. Tanto o meu encontro com Fernando Melo, quanto à 10ª edição do Torneio de Xadrez Memorial Bobby Fischer, que resplendeu os dias e noites de João Pessoa. Entretanto, o que deveria ser comemorado por abraços e louvações pessoais, descambou para o exagero das homenagens: Fernando Melo resolveu me incluir entre os Paladinos do Xadrez que receberiam justos preitos, encabeçados pelo potiguar Luís Macedo, o Paladino do Nordeste, completando a tríade Salomão Rovedo (Sudeste) e Ary Born (Sul). Foi uma grata surpresa tanto para o festejadíssimo nonagenário Macedo, para mim e para o Ary Born.

Torneios de xadrez ocorrem por vários motivos. O primeiro é para lançar a juventude na aventura do xadrez. O iniciante tem oportunidade de enfrentar mestres e testar seus conhecimentos. Aprende também a enfrentar o ritual ético e prático das competições, a conhecer e cumprir as regras, a manter a disciplina, indispensável e necessária para seguir adiante. Os Mestres, que nas primeiras rodadas enfrentam os de menor rating, têm que tomar precauções para não ser surpreendido por um iniciante – coisa que é inevitável ocorrer. Os veteranos consagram a presença nos torneios para cumprir o fado, o destino: seguir jogando. E também para rever e abraçar os amigos que só reencontram nas competições.

Assim foi esse X Memorial Bobby Fischer de 2019. Mas entre tantos regalos e agrados o que mais me tocou foi ter recebido o livro que Fernando Melo escreveu em 2017 “O escudeiro de Caíssa”, no qual o autor refaz – de modo simples e direto – a trajetória de Bobby Fischer rumo ao Campeonato Mundial de Xadrez em 1972. Ele mesmo confessa por que não se enveredou por estradas que não interessam aos admiradores devotados, mas sim a escribas e fofoqueiros: “Sua ideologia, crença, sua vida particular e principalmente o que aconteceu a partir do dia em que conquistou a coroa mundial, até a sua morte, não são temas para este livro”.

O livro em si é empolgante. O texto, como todo texto bem escrito, é fluido, escorre manso como os rios interioranos. Peguei para ler no pouco espaço de tempo que intercalava as rodadas do torneio e só larguei na última página, na esperança de que no vácuo que se formou tivesse mais alguma coisa. Fiquei com gosto de quero mais… Parafraseando o próprio Fernando Melo, direi: Essa foi a mais forte alegria que tive nesse final de semana que passou. E agora não escrevo nenhuma palavra a mais! Quem quiser saber de que se trata que escreva ao Fernando Melo e reze para que aconteça o milagre de ele ter algum exemplar na gaveta para oferecer a você.

Rio de Janeiro, Cachambi, 4 de abril de 2019.

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Ritinha

India

Não comi a Ritinha, não. É mentira. Ela passou pelo corredor, me agarrou pelo braço e fomos ao seu quarto. Era para provar a nova lingerie que tinha comprado, disse. Diante do espelho tirou a roupa, vestiu o sutiã, a calcinha. A lingerie era mais transparente do que alma. Virou-se de frente para mim. Aí! O que acha? Linda né? Claro. Concordei rindo nervoso. Tira aqui esta etiqueta. Fui por trás dela e cortei a etiqueta próxima ao pescoço. Senti o cheiro de Ritinha. Ela se virou de repente ficamos boca a boca.

Espanto.

Caí sentado na cama. Ritinha se riu! Me diz. gostou? O sutiã ficou bem, os seios pequenos, o mamilo querendo voar.  Já o biquíni mal comportava a selva de pentelho que varria as coxas e terminava sabe Deus aonde. Ritinha deu voltas diante do espelho, pelo quarto, imitando desfile de moda. Por fim tirou tudo, guardou na caixinha dourada da loja.

Cantarolava feliz, nua, de lá para cá como se fosse a coisa mais natural do mundo. E era. Deitou-se na cama onde eu estava sentado, botou as pernas sobre as minhas, acendeu o cigarro e ficamos trocando ideias. Ria, ria sempre. Depois foi à geladeira, tirou ostras, salpicou sal e limão e trouxe para a cama. Serviu também doses de tiquira em copinhos. Bebemos o grogue, chupamos as ostras e nos despedimos.

Correu boato que comi a Ritinha. Comi não. É mentira.

-0-

Dias depois encontrei Ritinha no elevador cheia de bolsas. Ajudei. Mais lingerie? Não. Roupa de praia, biquíni e canga. Lindos! Comprei no site http://www.brazilbeachwearco.com. Vou provar agora. Vem. Tenho uma novidade para ti. O que seria? Fiquei curioso. Que parte do corpo de Ritinha seria novidade?

Ritinha foi lá para dentro a cantarolar. Voltou de repente, nua, jogou os braços para o alto. Surpresa! Espanto! Ritinha, o que é isso? Ela se depilou todinha. Ora, como tu achas que se usa biquíni? Com aquela pentelhada toda não dá. Gostou?

Ritinha era a índia que deixou Pero Vaz de Caminha de pau duro. A vergonha lisinha, a bunda de neném. O colorido do biquíni caiu bem no corpo dela. Mas a parte de baixo era tão diminuta que deixava dúvida se Ritinha tinha boceta ou não. Botou a canga ao redor da cintura. Tira umas fotos, vou mandar para o site.

Depois guardou tudo e se deitou a meu lado. Cismou de esfregar o pé na minha cara. Ao fazer isso o corpo de Ritinha liberou certo aroma que repercutiu algo do passado. Ostras, o aroma de ostras também remetia à minha primeira vez. A gente botava a ostra na ponta da língua e slup! Chupava. Ostras, sal, limão. Mar na boca e amar nas dunas de Araçagi. Segurei a perna de Ritinha. Que foi? Ostras, Ritinha, ostras.

Os olhos de Ritinha marejaram quando chupei a ostra.

-0-

Ritinha disse com os olhos grandes arregalados. Estou grávida. Depois riu feliz, nos abraçamos.

Aqui é lei. Engravidou, casou. Casei. Foi bom. Os amigos vieram. Ceres, Vangico, Lima, Ivanira, Fernando, Márcia, Zé, Gilberto, Ana, Frank, Arruda, Hilda, Francemir, Comaru, Teresa, Arruda, Melo, Amelinha, Otto, Milton, Beatriz, Duayer, Machado – tantos, tantos, que nem cabem todos aqui. O Quincas Oliveira, atacado por violento piriri, não veio.

E agora? Adeus sinuca no João Paulo. Adeus Nhozinho Santos. Adeus farra no Filipinho. Adeus putaria na 28. Adeus jogo de bola. Adeus ostras em Araçagi. Adeus transar nas areias. Muitos adeuses.

Assumi. Gostava ser eu e Ritinha. Andava atrás dela para gozar a barriguda andar como pata. Patinha! Não enche, palhaço. Gostei ser marido. Descobri que mesmo prenha dava para colher ostras. Fui ficando. O tempo passou. A turma cresceu, foi embora. Agora, sós, criamos rugas, cajus, varizes, mangas e um gato.

Não dei vacilo. Nem quando esbarrei com Manuela, a nova vizinha. Ela chegava das compras. Caiu uma bolsa. Ajudei. Vi peças de lingerie. Gostou? Lindas, né? Gostei. Claro. Vou experimentar agora. Quer ver? Vem. Balancei. Ela percebeu. Vem?  Vou não. Tremi na base. Bem que gostava, mas vou não. Manuela insistiu. Tem ostras. Vem.

Com a pílula azul até que dá. Mas não fui. Não comi a Manuela.

Rio de Janeiro, Cachambi, 26/03/2019.

Seja um Sonhador

via Seja um Sonhador

Empatia ou Compaixão

via Empatia ou Compaixão

A menina que amava Beethoven

Guiomar Novaes1
Na história da música Beethoven é classificado muitas vezes como a ponte que ligou os períodos clássico e romântico. É verdade, mas apenas em parte, pois ele foi o último renascentista, o último barroco, o último clássico, enquanto foi o primeiro romântico, o primeiro expressionista, o primeiro moderno, sua música é onde o passado desembocou e onde o futuro se baseou. Ele foi a ponte entre o que havia antes e o que viria depois. (Gregório Calleres, compositor).  
Beethoven: Sonata nº 30 para piano. Expressivo. Suave. Com profundo sentimento. São as palavras-chaves para a atmosfera dessa maravilhosa sonata. E quão apropriada é esta música, que foi dedicada por um compositor de 52 anos de idade à jovem e bela Maximiliana Brentano, de 19 anos. (Arnaldo Senise, no CD abaixo citado). 
Este conto foi baseado no artigo de Arnaldo Senise sobre Guiomar Novaes na contracapa do CD Guiomar Novaes – Beethoven Concerto nº 4 op. 58 – Gravadora CID – 1992. Excertos do texto estão ambientados no corpo da estória. 
(Foto: página Guiomar Novaes no facebook). 

I

Quando Elizabete retornou da Europa, além do meritório diploma do Conservatório de Música de Paris, trouxe todos os recortes dos jornais que publicaram comentários sobre seus recitais. E seu maior prazer era mostrá-los às amigas que vinham visitá-la. Nessas ocasiões, seu rosto normalmente pálido, sofria uma mutação, avermelhava-se, adquiria uma cor púrpura, provocada pelos risos alegres. A revista “Classic”, de Londres, como a se escusar diante dos leitores, publicou em editorial:  

“Buscar descrever o que foi o recital Beethoven da pianista brasileira Elizabete, seria a mesma coisa que tentar definir para um cego o que é a luz do sol”.  

Acho que vale a pena contar a curta trajetória de Elizabete, porque temos cada vez menos a graça e o privilégio de, ante a luz do sol e de todos os astros, descortinar em total plenitude a nesga do gênio que foi, como artista, essa nossa pianista. Temos o som de algumas das suas execuções, é claro, mas são pouquíssimas – e nenhuma à altura dos prodígios que ela perpetrava. Então, vale a pena sim (convém repetir mil vezes), vale a pena tentar encontrar palavras que simbolizem a justa condição em que se põe a humanidade diante do fato miraculoso. Porque é importante que o legado deva ficar ao menos como lembrança, essa imortalidade menor. E ainda mais: quando o resto não passa quase sempre de lantejoulas, é bom relembrar Mozart, que dizia com propriedade:

“A música, como forma sonora, reina soberana e é preciso esquecer tudo o demais”.

Elizabete nasceu em Rosário, cidadezinha do interior maranhense próxima à Ilha de São Luís, sétima filha de numerosa família, quase todas eram mulheres, às quais se somavam dois homens. Tinha os cabelos louros encaracolados e os olhos azuis da avó catarinense de origem nórdica. Sendo de compleição frágil, a mais frágil das irmãs, era difícil prever-se qual seria a sua trajetória futura, mas o milagre que a acometeu muito cedo tirou todas as dúvidas. Mal aprendeu a ler e falar diante da espantada família sentava-se ao colo da mãe e dedilhando o velho piano a quatro mãos executavam valsas e polcas brasileiras. Um pouco mais tarde se aventurou sozinha, reproduzindo de ouvido o que escutava, deixando as pernas curtas flutuando num vai e vem ritmado, quando sentada ao banco do piano.

Na verdade o milagre era mais devido à força e determinação com que buscava compensar a fragilidade física, para se colocar em igualdade de condições ante os demais irmãos. Cansara-se de ser tratada com excessivo desvelo, como se fosse um doente inútil e esse esforço foi premiado com o apoio irrestrito de toda a família, mestres e amigos. O piano a igualava a todos e muita vez dava até certa vantagem – afirmavam os seus conterrâneos. Primeiro, o professor padre Chiafarelli, que pegou suas mãos alvas e delicadas, de dedos longos, dizendo que Elizabete tinha mãos de pianista. Todos foram unânimes em ressaltar o talento incomum, bem antes que imaginassem ler coisa alguma do que a seu respeito diriam mundo afora os maiores especialistas, os mais respeitados mestres, os mais famosos críticos e, por fim, as plateias apaixonadas dos seus recitais beethovenianos.

Enquanto suas irmãs se limitavam a se preparar para casamentos sólidos, Elizabete exigiu tratamento diferente. Resulta que ela foi encaminhada para os estudos regulares de piano aos seis anos, completando a formação, primeiro em São Luís e depois na cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Após dois anos na Escola Nacional de Música saiu, aos 14 anos, já pianista consumada. Depois do que, ela obteve a chancela do Itamaraty, o diploma e bolsa de estudo para se aperfeiçoar no Conservatório de Paris. Apesar de tocar todos os compositores de piano indistintamente, a sua dedicação à obra de Beethoven acabou se transformando em paixão e culto.

Na Cidade Luz teve que fazer um exame introdutório, no qual foi admitida em primeiro lugar, vencendo cerca de 500 candidatos originários de vários países. Claude Debussy pertencia à banca examinadora e se rendeu cativado quando deu o parecer:

“A personalidade artística que mais sobressaiu entre todas as sementes é uma jovem brasileira. O seu olhar é inebriado de música e, quando está ao piano, possui o poder de se isolar de tudo que a circunda, sinal característico e raro do verdadeiro artista”. 

Contrastando as feições delicadas e o corpo frágil com a febre de agitação, enquanto cumpria estágio no Conservatório durante os estudos, começou a aparecer em concertos, tanto para assistir como para executar as sonatas de Beethoven, suas preferidas. Acompanhada do irmão mais velho, ambos ficaram deslumbrados com as cidades europeias, ela aprendeu a circular por Paris com desenvoltura. As apresentações informais começaram a se avolumar a ponto de abalar a rotina das plateias e da crítica especializada.

O que se poderia esperar da moça que chega a um templo da costura mundial e ao invés de se derramar pelas ruas das mais formosas lojas de modas e peles, das vitrines cheias de modelos vestindo as mais afamadas marcas de estilistas, busca o silêncio? O que faria uma moça do interior se recolher a um apartamento na Cidade Luz, ao invés de se enfeitiçar pelas joias ou perfumes das mais afamadas fragrâncias, se deixar levar pelo sabor do champanhe e pela beleza e charme dos pratos que levaram a cozinha francesa ao ápice, pelos restaurantes à margem do rio Sena? Pois em vez de desfrutar tudo isso Elizabete simplesmente se entocava quase incomunicável nas salas de aula, nos salões de concertos, nas editoras de música, finalmente convivendo entre os mais famosos compositores, os mais respeitados e exímios pianistas, violinistas, maestros – o mundo musical.

Após dois anos de estágio, Elizabete arrebatou o 1º lugar no respeitadíssimo concurso do Conservatório de Paris, que tinha como examinadores alguns dos maiores compositores da Europa, inclusive o já citado Claude Debussy, num justo eco à consagração que seu talento provocara. Seus olhinhos azuis, a testa alva vincada, a posição debruçada sobre o piano, uma concentração indevassável, a cabeleira loura iluminada, tudo isso chamou a atenção de alguns, que começaram a compará-la com o ídolo Beethoven. Um Beethoven de saias! – publicou um jornalista mais afoito.

Após o exame excessivamente rigoroso diante das mais eminentes figuras da música europeia, ela obteve o primeiro dos cinco prêmios que foram concedidos aos melhores participantes. As provas, pela alta qualidade dos executantes, atraíam ao Conservatório de Paris numeroso público, críticos influentes, jornalistas, editores musicais, empresários e expertos musicais. Quando ao final das apresentações o nome de Elizabete apareceu em primeiro lugar, o público se pronunciou numa inesperada reação, começando a gritar seu nome em uníssono. A aluna teve que repetir a prova para satisfazer o público exaltado e nenhum silêncio foi mais absoluto daquele que se fez quando seus dedos levíssimos e enérgicos começaram a tocar as teclas. Ao final a ovação se repetiu e no dia seguinte a douta Europa de todas as artes proclamava através da imprensa a seu respeito:  

“Elizabete é a mais bela natureza de pianista com que se possa sonhar, ouvindo as obras de Beethoven”.

“As sonatas de Beethoven tiveram na intérprete Elizabete o talento mais perfeito, mais formoso e mais impressionante, que não se encontrou jamais em um pianista”.

“Inesquecível recordação: a sala apinhada, metade da plateia em pé, a aclamar a pequena jovem Elizabete, que se agigantava sozinha num recital de piano de oito difíceis peças beethovenianas”.

“Tão diferente dos demais, o que impressiona em Elizabete é a autoridade de estilo. Extraordinário, inverossímil. O próprio Beethoven não hesitaria em dizer: – Simplesmente fantástico!”.

“Ao fim do recital de Elizabete, reinou na sala a atmosfera de júbilo comovido, a sensação rara de imensurável deleite. A sombria figura do mestre alemão pousava onipresente sobre a plateia”.

“Elizabete, dona de técnica avançada, perfeição absoluta, num reinado metafísico, que a possibilita executar tudo, impondo-se nas provas mais árduas que o gênio de Beethoven produziu”.

II

O que impressionava tanta gente era o contraste entre o que viam e o que ouviam: uma mocinha, uma adolescente de feições delicadas, frágil, cujos dedos longos e finos circulavam livres no teclado, um universo sem fronteiras, acolchoando todo o ambiente com ressonâncias monumentais. O auditório lotado prendia a respiração quando Elizabete principiava a tocar. De início seguia a partitura exposta à sua frente, mas depois mergulhava na música de maneira tão profunda que até a auxiliar que virava as páginas esquecia-se de fazê-lo.

Em todos os concertos para os quais Elizabete fora convidada, nas mais importantes salas das capitais europeias, deixava estonteadas as mais altivas personalidades do mundo artístico. Um frenesi sublevava as plateias e musicólogos, professores, compositores e a crítica, viram-se na obrigação de rever conceitos sobre a arte do piano. Exagero ou não, nossa artista era comparada a Chopin, Liszt, Busoni, Rachmaninoff, simplesmente os maiores pianistas de todos os tempos.

Elizabete, com menos de 15 anos de idade, fazia tremer as regras, abalando as noções do que a arte de interpretar ao piano dizia respeito até então. Cada apresentação era um verdadeiro vendaval de assombrosas referências. A pacata Suíça estremece. Na famosa e respeitabilíssima Academia de São Petersburgo, onde passaram Tchaikovsky e Rachmaninoff, foi aplaudida de pé. De passagem pela Áustria tocou no Festival de Bayreuth como convidada. Da Alemanha à Itália os jornais, os críticos musicais, as plateias, se manifestavam espantados com o prodígio. Em Londres o mais circunspeto crítico do The Time se deixava levar:

“O seu poder de interpretação é algo de anormal, mas ela é verdadeira, real, simples e cativante”. 

Somente depois que seu nome se consolidou, que as águas turbulentas se acalmaram, Elizabete deu-se ao luxo de aceitar os convites para visitar alguns templos da moda. Tirou momentos de folga, gozou o privilégio da fama e pôde até se perder pelas vielas e admirar as vitrines cheias de belos vestidos, casacos de pele, roupas da marca de estilistas que enchiam as páginas das revistas de alta costura. Assistiu a desfiles, desfrutou o anonimato e a fama, deixou-se levar pela magia de uma taça de champanhe gelada, pelo sabor inigualável da cozinha francesa, apreciou passantes da Cidade Luz, gente comum que circulava pela margem do Rio Sena.

Livre, enfim, do sacrifício das aulas e dos concertos, Elizabete circula anônima entre o povo da rua, ouve os músicos que tocam para viver nas portas dos bares, simples músicos de calçada, violinistas que executavam cançonetas francesas para o deleite dos turistas. Enquanto isso, à sua volta se instala o pasmo: tudo que acontece em torno da pequena pianista a imprensa documenta fartamente.

“Santo Deus! Um gênio do piano, se é que antes já tenha existido algum”.  

Quem assim se revela é o eminentíssimo crítico Hamm Franklin. O decano filósofo Johann Herbert, o mais temido, mais sábio e ilustre dos musicólogos, que um dia declarou execrar a maioria dos tocadores de piano e quase toda a totalidade dos executantes de Beethoven, no New York Times confessa sem medo de ser redundante:

“Nem todas as gerações terão a felicidade de ouvir uma Elizabet, principalmente quando interpreta genialmente, o gênio Beethoven”. 

Do New York Herald:

“É uma lástima que Bach, Gluck, Chopin, Liszt, Rubinstein, Debussy e principalmente Beethoven, não estivessem presentes no Classical Hall para ouvir a mais talentosa pianista que aqui se apresentou”.  

O New York Tribune continuava a cantilena de notícias sobre Elizabete:

“Após o recital da pianista Elizabete, os insistentes, inúmeros e repetidos pedidos de bis e mais bis de uma plateia hipnotizada, que se recusava a abandonar o recinto, forçou a direção do teatro a solicitar auxílio da polícia para que se retirasse o público”. 

Para se ter ideia do que se disse quando Elizabete interpretava Beethoven, há de se recorrer a Harriette Brower, em “Piano Mistery”:  

“A técnica é uma arte em si mesma. Mas nenhum problema parece se opor à pianista Elizabete, nem qualquer dificuldade, tudo é tecnicamente vencido. O próprio Beethoven gostaria de vê-la interpretar suas obras”.  

“Seus glissandi ondulam entre os altos e os baixos do teclado com beleza e tanta maciez que jamais os superam as mãos de nenhum outro pianista que se tenha memória. Seus acordes são cheios e suntuosos, seus trinados uniformes como cantos de pássaros”.  

“O ouvinte tomba assombrado ante tal soberbia e se põe a imaginar onde ela teria adquirido técnica tão consumada. Em Elizabete se deslumbra o gênio interpretativo que capta o sentido íntimo da composição, desvelando a mensagem poética e emotiva, que ela é capaz de comunicar com vigor e encanto tão persuasivos quanto extraordinários”.

III

Então é fácil imaginar a comoção que tomou a todos quando Elizabete retornou da Europa e chegou à pequenina cidade de Rosário, após receber as devidas homenagens, dar entrevistas e cumprir recitais na capital São Luís. Com que orgulho exibia para as irmãs, os pais, as amigas, o diploma de Honra ao Mérito do Conservatório de Paris, os recortes dos jornais, agora organizados por país e data, os comentários traduzidos, rasgados, elogiosos, sobre os recitais dedicados exclusivamente à música de Beethoven.

A revista Musical Classic, esta chegou inteira e novinha, mas pouco depois, o editorial que impôs a toda Europa humilde confessava:

“Buscar descrever o que foi o Recital Beethoven da pianista brasileira, seria a mesma coisa que tentar definir para um cego o que é a luz do sol”.

A revista logo estaria amarrotada, as folhas amarelecendo rápido, tantas foram as mãos suadas de emoção por que passou.

Uma visita especial Elizabete dedicou ao seu primeiro mestre, padre Chiafarelli, que, aos 80 anos, tocou nas mãos delicadas de dedos longos – “Mãos de pianista” ele dissera –, como a predizer o futuro. O velho padre a recebeu com os olhos marejados, mas sorridente e emocionado. Ela não perdeu a oportunidade para conversar bastante e ao fim recebeu – igualmente emocionada – as bênçãos do dedicado mestre. Elizabete foi ao órgão executar a peça de Bach que mais agradava ao idoso clérigo.

A cidade de Rosário, com seus cantinhos secretos guardados da infância acolheu com aconchego a celebridade, mas também lhe deu espaço para o merecido descanso. Depois do turbilhão, após a euforia da chegada, sua vida se tornou mansa como a cidade às margens do rio. Na sua residência choviam cartas, convites, cartões, publicações mandadas de todos os lugares em que passou, chegavam centenas de contratos para concertos, gravações, planos para as trinta e três sonatas de Beethoven. Era o sonho de se tornar concertista que estava prestes a ser realizado, mas, por força do destino, somente parte desse sonho se confirmou. Afora algumas gravações feitas em São Luís mesmo, com equipamentos que não eram os mais modernos, Elizabete não pôde cumprir nenhum dos demais compromissos.

Com todo esse aparato e com o coração comovido, só então alcançaríamos o poder de distinguir a qualidade do tesouro que se perdeu com a morte de Elizabete, antes de completar 18 anos, quando se consolidava mundialmente a fama de ser a maior intérprete do genial compositor germânico, o maior fenômeno pianístico deste século. Os pais e irmãos não quiseram enterrá-la no cemitério público: não combinava com o espírito libertário de Elizabete. O corpo foi depositado no Sítio Saudade, de propriedade da família, às margens do rio, sob um pé de ipê amarelo, onde Elizabete costumava se isolar em meditações serenas. Assim estariam sempre próximos dela.

Hoje já nem se distingue mais o local nas proximidades do ipê, a não ser por instinto, porque o capim e os arbustos já recuperaram o espaço que era seu por natureza. O irmão mais velho Salvador Jorge, que a acompanhou na viagem à Europa, guarda a página do Diário com a impressão digital das mãos de Elizabete, entre desenhos, recortes e frases que os irmãos faziam se divertindo, no tempo de uma juventude interrompida.

Para escrever sobre o talento que foi Elizabete, teríamos que recorrer a um requintado vocabulário, uma gama de adjetivos aplicados ao superlativo. Mesmo assim seria tarefa árdua, porque, não sendo um fato sobrenatural, era o gênio de Beethoven que a dominava quando estava ao piano. É também das poucas pianistas que não se pode descrever sem usar as expressões requintadas: temos de apelar para o excepcional, o exagerado, o comovido. Apesar disso, hesita-se na escolha de qualificativos que a definam, tão gastas pelo uso, em tantas línguas, têm sido as expressões de homenagem aos pequenos gênios, que surgem e se esfumam a todo o momento.

Não podemos esquecer que Beethoven conquistou espaço na história da música muito em parte graças às composições instrumentais. Portanto, somente quando compreendermos a mensagem de um artista solitário, integrado à natureza das coisas, que sempre pregou a liberdade e o direito à expressão individual, só quando estivermos totalmente de posse do som de Beethoven em nossa alma, poderemos nos permitir o luxo de entender o que foi a iniciação de Elizabete pela música.

O que sabemos de definitivo é que ela está eternamente unida ao compositor pelo envolvimento adquirido nos dois anos mais turbulentos e emocionantes de sua vida.

FIM

Rio de Janeiro, Cachambi, abril de 2001 (revisitado em maio de 2018).
© Salomão Rovedo

No Longer Writing, Philip Roth Still Has Plenty to Say

Foto NYTimes

Foto: The NYTimes

Embora não escreva mais, Philip Roth ainda tem muito a dizer

Entrevista a Charles McGrath – The New York Times, 20 de janeiro de 2018.

Com a morte de Richard Wilbur em outubro, Philip Roth se converteu no membro mais antigo do Departamento de Literatura da American Academy of Arts and Letters. Roth é pertence à academia desde tempos imemoriais, quando a entidade tinha figuras hoje quase esquecidas, como Malcolm Cowley e Glenway Wescott: luminares de cabelos brancos de outras eras.

Há pouco Philip Roth se uniu a William Faulkner, Henry James e Jack London como um dos pouquíssimos americanos a ser incluído na coleção francesa La Pléiade (modelo para as edições americanas Library of America); a editora italiana Mondadori também está publicando seus livros na série Meridiani de autores clássicos. Todo esse reconhecimento no outono da vida — somados ao Prêmio Príncipe de Astúrias outorgado pela Espanha em 2012 e à Comenda da Legião de Honra da França em 2013 — parece a ele tão gratificante como divertido.

“Olha isto”, me disse mês passado, enquanto segurava o volume da encadernação ilustrada da Mondadori, tão grosso como a Bíblia, que reúne títulos como Complexo de Portnoy e Zuckerman Scatenanto. “Quem lê livros como estes?”

Em 2012, ao se aproximar dos 80 anos de idade, Philip Roth anunciou com rufares e foguetes que tinha parado de escrever (na verdade já tinha deixado de produzir dois anos antes). Desde então passa muito tempo esclarecendo as coisas. Escreveu uma carta longa e acalorada a Wikipédia, por exemplo, questionando a absurda afirmação de que ele não era um testemunho crível de sua própria vida (finalmente, a Wikipédia se retratou e refez completamente o verbete sobre Roth).

Roth também mantem contato frequente com Bake Bailey, a quem nomeou seu biógrafo oficial e que já reuniu 1900 páginas de notas para um libro que, se espera, tenha a metade disso. Ademais, faz pouco supervisionou a publicação pela Library of America de Why Write? – o décimo e último volume da edição de sua obra. Como espécie de limpeza final, de polimento do seu legado, o libro inclui uma seleção de ensaios literários dos anos sessenta e setenta; o texto completo de Shop Talk, sua coleção de 2001 de conversações e entrevistas com outros escritores, muitos deles europeus, e um capítulo de discursos e ensaios de despedida, vários publicados pela primeira vez. Não é acidental que o libro termine com a frase de três palavras “Aqui estou eu”.

Porém, Philip Roth leva hoje a vida tranquila de um aposentado em Upper West Side, sua casa em Connecticut, onde se recolhia para escrever durante longos períodos e agora habita só durante o verão. Visita amigos, assiste a concertos, revisa seu correio, vê películas velhas em FilmStruck.

Há pouco o visitou David Simon, criador de The Wire, que está fazendo uma minissérie de seis capítulos sobre The Plot Against America e depois do encontro disse que se sentia seguro de que seu romance estava em boas mãos. A saúde de Roth é boa, apesar de ter se submetido a várias cirurgias por um problema de coluna, mas ele está contente e satisfeito. É reflexivo, porém continua sendo, quando quer, muito divertido.

Tendo entrevistado Roth várias ocasiões ao longo dos anos, no mês passado perguntei se podíamos conversar de novo. Igual a muitos de seus leitores, me preguntava o que o autor de American Pastoral, I Married a Communist e The Plot Against America, pensa do estranho período que estamos vivendo. Também me dava curiosidade saber como passa o tempo: resolvendo sudokus? Vendo televisão o dia todo? Ele aceitou ser entrevistado, porém só através de e-mail. Necessitava tempo, disse, para pensar no que queria dizer.

P. Em poucos meses você completará 85 anos. Se sente um ancião? Como tem sido envelhecer?

R. Sim, há alguns meses deixarei a ancianidade e entrarei na ancianidade profunda: cada dia caindo ainda mais fundo no temível Vale das Sombras. Agora, é surpreendente estar ainda aqui ao fim de cada dia. Meter-me na cama à noite, sorrir e pensar: “Vivi mais um dia”. E igualmente despertar oito horas depois, ver que é a manhã do dia seguinte e que continuo aqui: “Sobrevivi outra noite”. Pensar assim me faz sorrir outra vez. Durmo com um sorriso e desperto com outro. Espanta-me estar vivo. Ademais, quando isto sucede, como tem sido semana a semana e mês a mês, desde que comecei a receber minha aposentadoria, gera a ilusão de que nunca terminará, ainda que saiba que o fim pode ocorrer a qualquer momento. É como jogar uma partida todos os dias: uma partida de apostas altas que, contra todas as probabilidades, continuo ganhando. Já veremos quanto me dura a sorte.

P. Agora que está aposentado como novelista, alguma vez deseja ou pensa recomeçar a escrever?

R. Não. Isso porque as condições que me levaram a deixar de escrever há sete anos não mudaram. Como expressei em Why Write?, em 2010 tinha a suspeita de que já havia realizado meu melhor trabalho e qualquer coisa mais seria inferior. Também que já não possuía vitalidade mental, energia verbal, nem condição física necessária para empreender e sustentar um ataque criativo grande, de qualquer duração, para a estrutura complexa tão exigente como a de um romance… Todos os talentos têm limites: sua natureza, seu alcance, sua força; e também seu final, um período, um ciclo de vida… Nem todos podem ser frutíferos para sempre.

P. Em retrospectiva, como recorda os cinquenta e tantos anos como escritor?

R. Com euforia e grunhidos. Frustração e liberdade. Inspiração e incerteza. Abundância e vazio. Resplendor à frente e confusão no caminho. O repertório diário das dicotomias oscilantes que qualquer talento suporta. E uma tremenda solidão também. E o silêncio: 50 anos numa habitação silenciosa como o fundo de uma piscina, escrevendo, quando tudo ia bem, a mínima provisão diária de prosa utilizável.

P. Em Why Write? você republica o famoso ensaio “Writing American Fiction”, no qual argumenta que a realidade americana é uma loucura tal que quase supera a imaginação do escritor. Disse isso em 1960. O que pensa agora? Alguma vez antecipou os USA como o que vivemos hoje?

R. Nada que conheça se imagina os USA como este que vivemos agora. Ninguém (exceto talvez o cáustico H. L. Mencken, que descreveu a democracia americana como “asnos adorando chacais”) poderia ter imaginado a catástrofe que açoitaria os USA no século XXI. O mais degradante dos desastres não apareceria, para dizer de algum modo, na atemorizante figura de um Grande Irmão orwelliano e sim como a figura ominosamente ridícula do bufão presuntuoso. Que ingênuo fui em 1960 para pensar ser um americano que vivia em tempos absurdos! Que pitoresco! Porém, o que poderia saber em 1960 a respeito de 1963, 1968, 1974, 2001 ou 2016?

P. Seu romance The Plot Against America, de 2004, hoje aparece espantosamente profético. Quando esse romance saiu, algumas pessoas o interpretaram como um tratado sobre o governo de Bush, porém de nenhuma maneira havia tantos paralelos então como os que parece ter agora.

R. Por mais antecipatório que esse livro possa parecer, há uma enorme diferença entre as circunstâncias políticas que inventei nele para os USA em 1940 e a calamidade que hoje em dia nos causa tanto desalento. É a diferença de estatura entre um presidente Lindbergh e um presidente Trump. Charles Lindbergh, na vida como em meu romance, pode ter sido um verdadeiro racista e antissemita, assim como um supremacista branco que agradava o fascismo, porém também era — pela extraordinária proeza do solitário voo transatlântico na idade de 25 anos — o verdadeiro herói americano 13 anos antes do que o descrevi ganhando a presidência. Historicamente, Lindbergh foi o valoroso jovem piloto que, em 1927, sobrevoou sem escalas por primeira vez o Atlântico, de Long Island a Paris. O fez em 33,5 horas, num monoplano de um assento e um motor, o que o converteu numa espécie de Leif Ericson do século XX, um Magalhães da aeronáutica, uma das primeiras figuras notáveis da era da aviação. Em compensação, Trump é uma fraude massiva, a soma perversa de suas deficiências, desprovida de tudo, exceto da ideologia vazia de um megalômano.

P. Um de seus temas recorrentes tem sido o desejo sexual masculino — um desejo perverso, na maioria das vezes — e suas diversas manifestações. O que pensa do momento que estamos vivenciando agora, com as mulheres denunciando e acusando a tantos homens famosos de assédio e abuso sexual?

R. Como você diz, o meu lado romancista não estranha as fúrias eróticas. Os homens envolvidos na tentação sexual são um dos aspectos da vida masculina sobre o que escrevi em alguns de meus livros. Homens que atendem ao insistente chamado do prazer sexual, atormentado de desejos vergonhosos e da temeridade da luxúria obsessiva, maravilhados inclusive com o chamariz do tabu. Durante décadas imaginei uma pequena confraria de homens perturbados, possuídos por forças impulsivas com as quais deve negociar e se opor. Tratei de não fazer concessões ao retratar cada um desses homens como eles são, como se comporta, excitado, estimulado, faminto nas garras da efervescência carnal, enfrentando dilemas éticos e psicológicos que supõem as exigências do desejo.

Na ficção não evitei fatos difíceis: porquê, como e quando, os homens excitados fazem o que fazem, inclusive se não estão em harmonia com o objetivo que uma campanha de relações públicas masculina — se existisse tal coisa — poderia preferir. Adentrei não só na mente masculina, como também na realidade desses impulsos, cuja pressão obstinada e persistente pode ameaçar o raciocínio; essas necessidades às vezes tão intensas que inclusive podem se sentir como uma forma de loucura. Em consequência, nenhuma das condutas mais extremas, sobre as quais tenho lido ultimamente nos jornais, me pegou desatento.

P. Antes de se aposentar, você era famoso por viver dias longuíssimos. Agora que parou de escrever, o que faz com o tempo livre?

R. Leio. Estranha — ou não tão estranhamente — leio muito pouco romance. Passei toda minha vida produtiva lendo romance, ensinando romance, estudando romance e escrevendo romance. Não pensei em quase nada mais até há aproximadamente sete anos. Desde então passo boa parte dos dias lendo história, sobretudo dos USA, porém também história moderna europeia. Ler tomou o lugar de escrever e constitui a maior parte, o estímulo, de minha vida intelectual. Semana passada li livros de dois amigos: a breve e sábia biografia de James Joyce, de Edna O’Brien, e uma autobiografia encantadoramente excêntrica, Confessions of an Old Jewish Painter, de um de meus queridos amigos mortos, o grande artista americano R. B. Kitaj. Tenho muitos queridos amigos que morreram. Muitos foram romancistas. Acho estranho receber seus livros novos pelo correio.

© 2018 The New York Times Company
Tradução: Salomão Rovedo

João Rovedo, A outra face da Ilha

Com JAlfredo

João Rovedo, meu irmão, foi poeta. Poeta-menor, porque prisioneiro da poesilha – a poesia que encarcera do mesmo jeito que o mar enclausura a ilha. Não foi o primeiro nem será o último a se emaranhar nesse asilhar voluntário que encerra corpo e espírito. Uma ilha é potencial Alcatraz da alma, no entanto, nem tudo se enjaula, nem tudo se fecha em si.

No primeiro clamor, a própria natureza que isola e prende e recolhe, sob a tranca de aparência inviolável, a assombração se revolta, liberando o espectro da poesia. Então, tudo se transfigura, tudo é visão, aparição daquilo que o poeta viveu e morreu.

O livro “A outra face da Ilha” – do qual segue uma antologia – reflete toda a fantasmagoria que os meios sobrenaturais e extraordinários da ilha estilhaçam o ser e a poesia. Quimera, utopia, aparições, fazem parte do conjunto de visões fantásticas e irreais que povoam a poesia de João Rovedo. Está tudo ali, sem tirar nem pôr.

O poeta Fernando Braga conta como escreveu a introdução ao livro, onde esmiúça com melhor visão a poesia de “A outra face da Ilha”:

Parece que foi ontem… Uma noite só nós dois, na casa em que eu morava no Araçagy, diante de uma pinga boa que trouxera do Mercado Central, começamos a bebericar, e eu apostilei essas notas.  Nós dois nos encantamos… Deu-me vontade de chorar agora… 

Apresentação

Fernando Braga

João Rovedo é o autor de “A outra face da Ilha”, livro com que abre uma porta ao universo poético maranhense, mais particularmente, de São Luís, esse território de artistas e pensadores, de lendas e abusões.

Nesse campo real e mítico, os versos desse mercador de sonhos atrelam-se em espaços lúdicos onde, na maioria das vezes, se abstraem tomados pelas formas livres como a viração nas tardes da Ilha.  

São versos quase dispersos que migram entre si, se identificam com os fatos visíveis da paisagem ludovicense, marcante no seu todo como contexto a realizar-se como ancoradouro emocional e visionário tendo como objetos os sobrados e sacadas, portais e janelas, fontes e mirantes, becos e azulejos como projeções em seus sentimentos e lembranças, símbolos mais que suficientes para motivação poética.  

São ainda carregados de signos os poemas deste livro, que os fazem cambiantes, alguns aflitos e com gritos sociais, estridentes mesmo, bem à moda do tempo que ora passa; outros, embalados na boa querência, falam de amor à Ilha e aos frutos de sua eugenia, mas todos recortados por vezes de uma realidade que o limite é a franqueza.  

“A outra face da Ilha”, do poeta João Rovedo, é manejado com características pessoais: são versos que emergem como partes naturais de seu intimismo, engenhados por crença do autor, sem pontuação, a conduzi-los a um único fôlego, mas que mesmo assim chegam plenos e inteiros ao outro lado da travessia, agarrados à palavra, essa lavoura indomável de estrutura verbal, esse encanto linguístico que faz a essência do poema ser eterna e com ela se corporifica e se espiritualiza e se personaliza.  

Meu caro João Alfredo Boabeyd Rovedo, em obediência às determinações de Deus, sempre é tempo de ser poeta, mesmo que ali não mais tenha a face de ontem. 

Antologia

RETRATOS 

O que descrevo da cidade

É o que os artistas pintam

É o que os poetas cantam.

Está tudo aí à luz do sol

Sobre este chão que pisamos

Sob este céu que nos cobre.

VITRAIS 

Nos entrepassos do alvorecer

sobre paralelepípedos da rua grande

rumo ao abrigo da praça João Lisboa

para saciar a ressaca do bar

Duas Nações.

É quando os reflexos do sol

como vias cambiantes da vida

irradiam novo ciclo na Ilha

nas sacadas e janelas abertas

da manhã.

IDOS

Quando ainda existiam

na Rua da Palma

os cabarés e a boemia

deixei a minha alma

dividir amor em demasia

entre putas que fingiam

na ilusão não percebia

a verdade nua e crua:

de que muitos chorariam

a morte daquela rua.

MATUTINA 

Na excomunhão da noite

foi somente o que restou:

uma estrela a testemunhar

as lágrimas da lembrança.

Na Ilha sequer a lua cheia

que o amor incendeia

vem dar o ar da sua graça

para aplacar a solidão.

ÍNCOLA

No entremeio dos gatos

e ratos do Beco da Bosta

uma rosa viceja ao rés

dos últimos raios de sol.

Somente então o poeta

adormece os seus medos.  

LAGOA 

“Porque o que é verdade à luz da lamparina,

            também é verdade à luz do sol”.

Salomão Rovedo

Lagoa Nhá Jansen empírica

vives de causas e de dramas

entre uma e outra política

muitas lágrimas derramas.

 

Lagoa Nhá Jansen cativa

dos prédios e dos manguezais

que ainda te mantém viva

ecoando gritos e tristes ais.

 

Lagoa Nhá Jansen concreta

de coração sangrado e exposto

estás sem rimas e sem poeta

que te possa cantar sem desgosto.

 

Lagoa Nhá Jansen sem pose

foram-se os tempos de esplendor

és somente uma lagoa – à la rose

com o mesmo cheiro e a mesma cor.

PALAFITAS 

Sobre o reino do Chama maré

As vidas em pau a pique e embira

Brincam no boi-de-taipa e de fé

Outras brincam no boi da mentira.

LIUZ 

Pelos cantos das ruas e do passado

piso as pedras calçadas da história,

marco os passos e ao silêncio atado

trago amores e encantos à memória.  

LUX 

Estou no pensamento isolado

na folha que baila ao vento

no papel que carece de sorte

sonho mais que um sonhador.

 

Estou no fim da fumaça

olhando o mundo inteiro

começo no meio da ilha

na ilha que está em mim.

 

Estou na estrela pálida

na terra que não tem luz

sou o fluido do carinho

do amor que não se calou.

MÃE D’ÁGUA 

O corpo das vestes despido

que o circo lar te conduz

sabe ser inconteste na fome

da rima faz o pão.

Na viagem de uma gota d’água

a luz viole(n)ta da vida

converge às palafitas

que emergem da solidão.

E do mirante dos pós

onde a palavra edita

os dias que a vida escoa

no escarro dos avós.

AS PRAÇAS 

“Mas o nosso povo, punge dizer, tem particular

desamor à coisa pública, mormente ruas e praças”.

Domingos Vieira Filho

 

Algumas sem graça mas belos acervos

são essas tais praças jardins florestais

umas com muitos ou poucos relevos

outras com pompas são quase reais.

 

Se uma do Lobo leva o abono

uma outra seu dono é o Reis

a do Dias é sem abandono

até a noite tem muito freguês.

 

A do Leite não assiste a enterro

esse evento é diário na Saudade

enquanto reina calma na do Desterro

a do Lisboa movimenta toda a cidade.

 

Nem a do Souza nem a do Andrade

não se empresta sequer para fuxico

além da do Deodoro por sua idade

tiraram a sombra também do Odorico.

 

O poder não tem pena da Misericórdia

nem do Catulo nem do Duque de Caxias

já que servem como exemplo em paródias

incluam a do Panteon nas profilaxias.

 

A Primeiro de Maio foi com a da República

rogar com Pedro II junto a Santaninha

para que seja praça de fato pública

e escusa aquela que omitiu a mente minha.

ROSA DOS VENTOS 

Se me sinto nulo

Mudo e sem norte

Como a prece no escuro

A incomodar o silêncio

Logo me conduzo

Ao róseo retilíneo

Onde me transverso

Na via púbere do ócio

Pois a Ilha saliente

Em versos me convida

A bailar como um louco

Na dança do cio da vida.

MIRAMAR

Nos mirantes da cidade

Ervas nascem plantação.

Nos mirantes ziguezague

Racham réstias.

Lodo limo construção

Nos mirantes da cidade.

Vigas do tempo que pariu

Pontes vias invasões.

Nos mirantes da cidade

Delírios visuais

Bondes odes procissão

Nos mirantes da cidade.

Os fantasmas ameaçam

Do Portinho ao Pespontão.

Nos mirantes da cidade

O sol e a solidão.

SEDIMENTAÇÃO

Na Ilha vou ficar

Vou andar até aonde

Deus não andou

Vou ficar sem pauta

 

Não irei sem lume

Como vagalume no dia

Sem algo além da solidão

Ilhado vou ficar

 

Sem pedir e sem medir

Fico o tempo preciso

Para que eu veja

O que Deus não vê

 

Antes de vagar pela Ilha

Travesso

Do que ir sem depois

Ou que eu me sinta

 

No anverso

No avesso.

OLHO D’ÁGUA

Do Olho d’Água

a água nos olhos

nos olhos da menina

espraiam a mágoa.

 

Meus olhos enxáguam

a menina dos olhos

seus olhos espelham

nos olhos da água.

 

A minha menina

dos olhos deságua

na menina da praia

do Olho d’Água.

OCASO

Quando o canto da andorinha emudece

O bando de guarás ao manguezal desce

O sol se esconde no mar

A Ilha se instala no bar

Lá do alto do céu estrelado vigia

Um homem na noite de almas vazia

A OUTRA FACE DA ILHA

Foi amor à primeira vista

Por ser menino não sabia

Que a Ilha o atraía

Com a bruma do amanhecer

Para seus braços mornos

Braços de verde mar e sol

Onde brancas dunas o acolheram

As sombras de verdes matas

Muitas garças poucas farsas

No Largo dos Amores.

 

Foi paixão à segunda vista

Ainda rapaz não percebera

Que a Ilha o seduziria

Com o céu estrelado

Como um véu de luar

Luas diurnas na Beira-Mar

Cheia de cruzes vazia de luzes

Aonde o sal das lágrimas

O transpôs às lembranças

Que adulto não esquece jamais.

 

Foi solidão à terceira vista

Pois homem logo se deu conta

Que era a Ilha uma fantasia

Emergida de histórias desbotadas

Azulejadas de casualidade histórica

Porque a realidade do homem ilhéu

É que na maresia ele se esvai

Entre becos de lioz e cantaria

Até que de si ecoa um sussurro a Deus

Enquanto a Ilha festeja o Boi Barrica.

TAPUITAPERA

 

“Ainda hoje em cada grupo de doze

há sempre um que se vende por 30 dinheiros.”

 

Alcântara

De lendas em ruínas

E das doces ervas.

 

Enquanto a chuva

Encharca o corpo

Os teus nativos

Ressecam o suor

Nas almas do Divino.

 

E desse parágrafo histórico

Ao espaço te lançam metálica

Pois da Mesa do Imperador

Ao Pelourinho

Tens hoje o perfil

De futuras Malvinas.

RURAL

Ai quanta saudade do meu chão

Da lua cheia que a Ilha acata

Da luz oscilante do lampião

Ai saudade como és ingrata.

S.O.S.

Elevem-me aos cumes santos

Atirem-me contra as pedras carcomidas

Desta Ilha

Levem-me aonde não possa eu

Ver-me nos esgotos da superfície

Tirem-me de dentro dos becos

De paredes racistas

Salpicadas

Com bosta de burros

Suguem-me o sangue e derramem-no

Nos murmúrios do sonho

Nas raízes do mar

Joguem-me dos curtidos mirantes

Dos telhados suicidas

Das sacadas salitradas

Cercadas de medo

De se ir

De se ficar

E não se voltar.  

ILHÉU

Venho no caminho longínquo

Da Ilha pequena maior que eu

Sentindo a veia pulsar

A saudade que eu deixo

Que levo das paisagens

De rosas no verde florir

Com doce sorriso despeço-me

Do silêncio profundo do mar

Para  sair em grande cidade

Sem passar a minuída vivência

Mas com toda certeza de ser

Maior que o gigante concreto.

TRANSE

Em justa memória a esses malucos-beleza que, com peculiaridades distintas, marcaram época no calendário da Ilha.

Nos paços da Ilha há falso traquejo

Ao lembrar Maria-Tostão em becos insanos.

Como de um fantasma o mesmo manejo

De Cara-Cagado veem ecos profanos.

 

Incide o tempo travesso com graça

Mangando de João Pessoa e assim

Como íncola das travessas da Ilha

Ser Vassoura um dos parentes afins.

 

O abrigo passarela de bondes na praça

Testemunho à desgraça de Boca-de-Solha

Que nas roucas estórias noturnas sofria

Bógues e chutes de putas e qualhiras.

 

Sobre portuguesas pedras em simetria

Rei-dos-Homens infante e dândi desfilava

Nenhum por mais que fosse afoito

De Bota-pra-Moer o lábaro tomava

Aquém do Paralelo-Trinta-e-Oito.

ENTRETANTOS

“minha cidade não é mais aquela…

… os demônios do passado não são mais

meus companheiros”.

Fernando Braga

Embora que muitos ainda te queiram

Já não quero tanto quanto quis outrora

Mesmo porque de uma ou outra maneira

Em mim muita saudade tua inda mora

 

Ébrio no entanto nos cantos das ruas

Vezes sem conta fiquei sem par

Sem saber qual face nua e crua

Na lenda das Minas querias ocupar

 

Assim te guardo na minha algibeira

Para não se perder a lírica encantada

Depois de ser a Atenas Brasileira

És capital da cultura nomeada.

BECOS

“… E porque tudo tem dois, três e mais nomes”.

Joaquim Itapary

Beco da Alfândega

da Baronesa

da Barreira

da Bosta

da Cadeia

da Cancela

da Faustina

da Felicidade

da Funerária

da Imprensa

da Lapa

da Pacotilha

da Palhoça

da Passagem

da Prensa

da Quinta do Barão

da Sé

da Varacaria

 

Beco das Águas Verdes

das Garrafas

das Laranjeiras

das Minas

 

Beco de Catarina Mina

de João do Vale

de Santo Antônio

de Todos os Santos

 

Beco Escuro

Feliz

 

Beco do Capela

do Caga Osso

do Coito

do Couto

do Deserto

do Desterro

do Jaú

do Mijo

do Oscar Frota

do Panaca

do Portão

do Portinho

do Precipício

do Prego

do Quebra-bunda

do Quebra-costa

do Rancho

do Seminário

do Silva

do Teatro

do Vira-mundo

do Xirizal

do Zé Coxo

 

Beco dos Barbeiros

dos Barqueiros

dos Burgos

dos Burros

dos Catraieiros

dos Craveiros

dos Engenheiros

 

Beco da Vida

Beco sem Saída.

SOB O CÉU

“Todas as coisas de que falo

estão na cidade entre o céu e a terra”.

Ferreira Gullar

 

No baixo do casarão

O artesão

No Beco da Faustina

A cafetina

Na cachaçaria do Batista

O artista

No Canto da Viração

O ladrão

No Convento das Mercês

O burguês

Na Fonte Maravilhosa

A religiosa

No Largo dos Amores

Os sedutores

No Comércio do Ezequias

As especiarias

Na padaria Santa Maria

A iguaria

Na Ponta d’Areia

A sereia

Na praça Maria Aragão

O cidadão

No rés do abrigo

O mendigo

Na Rua do Chafariz

A meretriz

Na Travessa do Mercado

O diabo

Na Vista do Mirante

O traficante.

AS FONTES

Na Ilha das fontes vertentes

A das Pedras é de lioz perene

Em águas de encantos perpétuos

Na Colonial ou na do Marajá

Há contos reais quase inconfessos

Como a das Bicas de indutiva sonata

Na do Ingazeiro ou na do Apicum

Onde as mentes como almas afins

Assombram o tempo na do Mamoim

Com louco tropel nas cantarias

Que ecoa nas galerias do Ribeirão

Mas a face elipse da Ilha inata

No silêncio da Saudade se desnuda

Se a face rebelde da Ilha reclama

A bênção a do Bispo inócua lhe dá

Então a outra face da Ilha

Suplica à Fonte (Iara) Maravilhosa

Que na dança das águas ensina

Entre cores e sons lágrimas derrama

Com medo da Fonte da Vida secar.

FRAGMENTOS

Da Ilha despeço-me

Nos subúrbios da solidão

Deixo meus traços meus laços

E o meu ensandecido aceso

A seus filho e netos e bisnetos

Da Ilha despeço-me

Nos braços tão gastos

Deixo meu coração em pedaços

Que os antigos azulejos

Moldam seu pretenso ser

Da Ilha despeço-me

Deixo na ótica do tempo

Os anos sem quatro estações

Alço voo dos seus mirantes

Como aves de arribação.

 

São Luís, Maranhão, 1984/2014. Read the rest of this entry »

O gato que ouvia Mahler

Hunter-Foto Priscila Rovedo

Sou três vezes apátrida!
Em toda parte um intruso, em nenhum lugar desejado!
Gustav Mahler

Para contar esta história seria preciso usar um método que fizesse reviver meu nascimento e infância. Mas não quero isso. É sofrido, triste. Por outro lado, não tenho alternativa. Não se pode fugir de Freud, Jung ou mesmo Lacan. Sei que nos problemas das áreas médica e biológica é interessante verificar se as variáveis estão relacionadas. E que, para explicitar essa relação, é preciso usar o por vezes doloroso método da regressão.

Só a análise regressiva possibilita confrontar relações razoáveis e relações empíricas. Essa abordagem, porém, exige coleta de dados e uso de análise linear. Só a impiedosa coleta de dados permite saber a natureza da relação entre passado e presente, capaz de neutralizar situações inusitadas e perigosas. Como se sabe, a regressão objetiva faz botar para fora o desconhecido – aí que está o perigo. É o procedimento mais comum usado para explorar as negações inseridas num contexto ignoto, capazes de florescer de modo espontâneo e cruel.

Até em Centro Espírita se sabe disso. O que está fora desse conceito é pura extrapolação e deve ser analisada com cuidado, pois pode não estar correta: o presságio – não a extrapolação – é o prognóstico mais aplicado na regressão. Também a escolha do ponto xis deve ser baseada combinando a sensibilidade com a especificidade, fugindo de classificar o evento e o advento. (Antônio Vieira – Sermões).

Séculos depois Jung achou isso justo, já que o não-evento é classificado não-ser, posto que é falso. Para Freud a avaliação metódica foi criada inserindo, na acurácia, a sensibilidade, a especificidade, o verdadeiro, o falso, o previsível positivo, o imprevisível negativo, o improvável positivo e negativo – todos são como elementos circundantes da regressão. E mais: não cabe à imperfeição do julgamento indagar se cada caso é justo ou injusto. Isso seria como o julgamento falso, mas isso não é problema ético, já que pecamos por imperfeição moral e ampla corrupção.

Até mesmo as ciganas, leitoras de cartas, das linhas das mãos, do tarô, que profetizam dichas y desdichas, revelam suertes y sueños, chegam à mesma conclusão:

Recuerde lo que le dice la gitana: por bueno y amable que parezca, ¡las obras buenas ocultan a menudo corazones repletos de lujuria y orgullo! Que no la apene mi predicción, sino sométase resignada. Aguarde serena la desdicha inminente, y espere la dicha eterna en otro mundo mejor.

Por isso, jamais se deve tomar decisão sobre o bem e o mal, pois isso significaria que tais categorias são inválidas, inexistem – o que é totalmente falso. O julgamento moral deixa sequelas, mas a injustiça será apagada da alma, seja qual seja o curso da vida. Desde Paulo – Coríntios, 13:12:

– Porque agora vemos por espelho um enigma, mas depois o veremos face a face. Agora conheço em parte, mas então conhecerei também como eu fui.

No entanto, não é o que dizem os filósofos:

O conteúdo dos julgamentos muda: nada pôde poupar a crucificação da decisão ética. Quem é culpado? Os judeus. Por pior que possa parecer, é preciso demarcar o desvio da moral e estigmatizar o infortúnio. É imperativo não sucumbir aos opostos, ao netineti hindu. O código moral nulificado não é novidade, é apenas ordem do dever cumprido.

Mas o que sei sobre isso? Sou apenas um gato. Um gato preto. E a vida do gato é uma tentativa aleatória, um fenômeno monstruoso por causa do número: sete vidas! É uma vida tão fugidia e imperfeita que a própria consciência da exuberância felina parece um prodígio. Só posso compreendê-la através das ocorrências anteriores.

Jamais esquecerei as palavras de Jung relatando a mais antiga das imagens que conseguiu recompor fazendo análise regressiva. Bebê ainda, ele descreve o passeio no parque, levado por uma babá. Está deitado num carrinho e o que vê? Só aquilo que um bebê poderia ver, imóvel em decúbito dorsal: raios solares trespassando a folhagem das árvores.

Era outono. As folhas das velhas árvores estavam já douradas, um doce raio de sol iluminava a paisagem.

Ele ouvia o burburinho dos passantes, o canto dos pássaros e outros ruídos. Fiquei pasmo. Como pode? Como pôde? Por outro lado, se Jung pôde eu também posso! Apesar de ser apenas um gato, um gato preto, posso tentar.

A mais antiga imagem que tenho de minha infância bem que poderia ser aquela de um saco de pano ruim em que estávamos metidos eu e meus irmãos, a viagem trepidante, o inesperado voo espacial e a queda súbita num rio fedorento. Mas não. Relembro ainda que horas atrás, antes desse desfecho, éramos uma turminha barulhenta que vivia brincando, lutando e caçando, até que todos, exaustos e famintos, corríamos aos mamilos da querida mamãe que jamais tornaria a rever.

No rio o saco flutuou um pouco até engatar num móvel abandonado. Arrisquei a fuga e consegui fincar as unhas no braço de um gasto e acabado sofá antes do saco se soltar e ser levado pela correnteza até desaparecer. Nunca mais revi meus irmãos, nem sei qual o destino deles. Quanto a mim, fiquei escondido no forro entre restos de algodão, até a escuridão chegar, trazendo fome, sede e medo: não tinha mais a mãe que me protegia e alimentava.

Tive que aprender a caçar baratinhas e arriscar a comer restos que pelo olfato tentava saber se estavam bons ou não. Sofri muitas vezes com dores, vômitos e diarreias, mas a cada dia melhorei e aprendi a não me alimentar de coisas estragadas ou não alimentícias. Em seguida descobri o perigo: enormes ratos, ratazanas, urubus, gaviões, as notívagas corujas, todos vasculhavam os lugares em busca de alimento para si, para os filhotes. Os menores não eram ameaça para mim: em breve seria forte e grande, mas agora não, eu não era páreo para os grandões.

O velho sofá me abrigou a contento num nicho de flocos de algodão e espuma sintética. Muitas e muitas vezes sonhei que estava agasalhado sob o ventre peludo de minha querida mãe. Outras vezes me senti bem aquecido, como se estivesse com o corpo enrolado como um caramujo junto aos meus irmãos. Uma noite despertei debaixo de chuvarada inclemente. Sentindo o sofá flutuar, prestes a ser levado pela correnteza violenta, em dois saltos rápidos pulei para fora.

Fiquei encolhido no meio-fio enquanto carros passavam atirando mais água sobre meu corpo transido. Nunca senti tanto frio na vida. A chuva também fez o trânsito andar mais devagar, os carros se moviam alguns metros e paravam. Eu me sentia cada vez pior, estava mal, mal mesmo. Em certa hora senti todo o meu corpo estremecer, estava febril com o sentimento de que algo ruim iria acontecer. Que triste fim me esperava: morrer ainda criança!

De repente o trânsito estancou de vez. Um carro ficou parado a meu lado, vi a porta se abrir, alguém olhando a situação da pista – fui localizado. Nem tinha mais como me encolher para não ser visto. Dois olhos grandes se fixaram em mim. Então, senti uma mão peluda e gorda me atracar pela barriga, depois fui atirado para dentro do veículo.

Fiquei jogado ali no chão enquanto o carro enfrentava a chuva. Ao ouvir o ruído do motor me lembrei do ronronar carinhoso de minha mãe, ao sentir o ar aquecido que vinha das frestas recordei do meu cantinho no sofá. Em pouco tempo dormi e só acordei quando o sol clareou o local onde estava. Era uma garagem – fui esquecido dentro do carro.

A casa a que fui levado depois – após passar pelo doutor de gatos, ser lavado com água e sabão e receber várias agulhadas – era uma casa habitada por gente barulhenta, com exceção de um velho que, sentado à cadeira de balanço, constatava atônito e em silêncio as mudanças de humor que se processavam ao seu redor. Seus olhos bailavam para todos os lados sempre que acontecia algo assim – como se estivesse alucinado.

Quando o barulho parecia alegria e era ilustrado por risos, abraços e beijos o velho até ameaçava rir, mas noutras ocasiões quando em meio à gritaria todos lutavam como se estivessem num ringue, os risos se transformaram em palavras que soavam a raiva, ódio e briga. Era tempo de guerra, pura guerra. Quando todos silenciavam, começavam a se arrumar para abandonar a casa. O velho, mal via o silêncio reinar, tratava de se arrumar e fugir dali rapidinho, que nem passarinho que encontra a porta da gaiola aberta. Mais do que corria, voava. Se não saía, botava música para tocar e fechava os olhos.

Vi logo que para sobreviver teria que me adaptar a esse ambiente insano e inseguro tanto quanto me adaptei ao sofá no canal fedorento a que fui atirado. Só que ali consegui a simpatia de pelo menos um companheiro: um menino da minha idade que brincava comigo por algum tempo, mas depois me largava de lado para mexer num estranho jogo eletrônico. Por mais que me esforçasse para retê-lo a meu lado oferecendo variados modos de luta e caça, os ruídos alucinantes da máquina eletrônica o atraíam e logo eu era abandonado.

As lutas começavam a sobrepujar as festas e, como resultado, também a tristeza começou a expulsar as alegrias. As discussões se tornaram tão insuportáveis que às vezes me sentia mais feliz e seguro quando morava no sofá velho à beira do rio fedorento do que naquela casa que, segundo meus pensamentos, seria confortável, segura, cheia de alegria e paz. Como pode isso?

De repente, como se um show tivesse acabado no teatro, todos saíam da casa cada qual a seu modo e jeito e para destinos diferentes. Depois da última batida da porta fazia um silêncio aliviado cujo ritmo e cadência era dada pelo ranger da cadeira de balanço, soando como uma música. Após algum tempo o velho se levantava, botava ração no meu prato e água no bebedouro, abria a gaveta superior da cômoda, tirava um CD e botava para tocar.

A música não era funk nem hip-hop, que sempre ouvi tocar nos bailes e festas da favela. Quando a noite avançava, os batidões se emendavam, as palavras eram de desordem e revolta, mas tinha espaço para o amor. Lá pelas tantas, quando o sol se avizinhava, estavam todos loucos de alegria e coragem. Os casais se abraçavam e se beijavam, grudados um ao outro ao som do pancadão. Isso não acontecia aqui e agora sei por que esta é uma família triste e briguenta de raros momentos de falsa felicidade. Também a música é triste, às vezes cheia de lutas, sons que chocam como o ruído de balas perdidas.

Não contive a curiosidade e na primeira oportunidade fui ver que música de morte era aquela. Joguei ao chão a capa do CD e lá estava o nome longo e esquisito da música, acompanhado de frases que não entendi. Gustav Mahler: Die glorreichen Adagios Direktor Herbert von Karajan. Nem precisava entender: a linguagem incompreensível que saía da garganta do velho era a visão daquela música toda, o espectro catastrófico do som, a assombração da tragédia ocorrida na vida do compositor.

A música enchia o ambiente com a melodia triste, muito magoada mesmo, tão deprimida que o velho se curvava atirando os olhos para o chão. Seus lábios se moviam mudos, aos poucos emitia um som como o zumbido das abelhas, um grito principiava a se transformar em palavra: Mahler! Mahler! Mahler! Eu me recolhia a um canto do sofá e ficávamos os dois ouvindo aquela música estranha de invisíveis sons, comoventes, desesperados. Depois o velho pendia para o chão até ficar de joelhos, e chorava.

E posto que Mahler! Mahler! Mahler! o fazia morrer ali mesmo, por que não teria de me afetar também? A música Mahler! Mahler! Mahler!, lembrava mamãe, meus irmãos, a sarjeta e o rio mal cheirosos, a fome, ratos e baratas. Eu também chorava, mas o velho não tinha noção de que choro de gato é expresso em lamentos guturais: talvez a ele chateasse minha lamentação, pois se levantava de supetão da cadeira, calçava os chinelos e voava para a rua em passos mais rápidos do que as pernas podiam.

Pouco tempo depois voltava, esbarrando os braços nas paredes do corredor, ralando os cotovelos, seguia direto para seu quartinho escuro, se atirava na cama sem tirar a roupa e dormia. O som da música de Mahler! Mahler! Mahler! continuava tocando no aparelho, que não desligava sozinho. Eu voltava à sala e encolhido no sofá acompanhava o som com gemidos que significavam saudade de meus irmãos, de minha mãe e do pai que só vi uma vez. O sofrimento mental me perseguia e me fazia definhar, até que chegasse alguém da rua e desligasse o aparelho de supetão.

Antes de dormir pensava na nova família confusa que tinha sem entender porque as brigas se sucediam e todos partiam para algum lugar e apenas eu e o velho ficávamos sós, ouvindo Mahler! Mahler! Mahler! Porque nada sei sobre isso (sou apenas um gato preto), me sinto impotente e incapaz de fazê-los entender que o mundo ao qual somos paridos é bruto e cruel, mas traz o dom da beleza divina. O sopro. Mas se até a música aqui é melancólica o que será alegre?

Dentro das possibilidades de gato, fiz muito para fazer crescer o amor dentro daquele ambiente confuso, admito. Mas não posso afirmar em sã consciência que consegui mudar algo. Aquela gente optava pela luta, ainda em tempos de alegria e felicidade, ambiente que me trazia euforia, me fazia correr pela casa toda, saltar nas cadeiras e armários, esconder-me entre os livros e nos vãos que só caberia o corpo de um gato. Tentei infundir esse amor em memória de meus irmãos, de meus pais.

Por ignorância desconheço se o amor reside no fundo de todas as coisas, a não ser que se adicione a ele também o ódio. Mas neste caso o mundo – aquele mundo particular – decerto ficaria bem mais triste, como de fato ocorreu. Considero inacreditável que essas pessoas não entendam patavina da língua dos gatos, embora me esforçasse para ensiná-los. Era incrível vê-los traduzir meus gestos, olhares e vozes em coisas absurdas, opostas ou a simples sinal de quem não entendeu. Pode ter cena mais inditosa, ambiente mais jururu do que aquele que brigas e xingamentos reinam? Um infortúnio maior do que passei? E meus irmãos, que será deles?

Foi ouvindo aquela gritaria sem fim onde ninguém conseguia dar a última palavra, pois sempre haveria réplicas, berros e insultos tais que até os vizinhos reclamavam, foi assim que aprendi os nomes de cada um: Gordo Escroto, Puta Doidona, Velho Cachaceiro e Pivete – o menor e meu amigo – mas a mim me chamaram Caçador só porque fui visto de noite caçando e comendo baratas. Ora.

Velho Cachaceiro, certo dia de lutas insanas, saiu rápido direto porta a fora, sem mesmo esperar a discussão violenta terminar, como era seu hábito. Nessas ocasiões eu e Pivete procurávamos refúgio seguro, pois às vezes, além de palavras de guerra e insultuosas, que feriam todos os entes familiares passados e presentes, além das palavras graves que feriam as almas, também voavam objetos, pratos, facas, garfos – o que tivesse à mão.

Os projéteis circulavam com rapidez assassina pelo ambiente, acertavam paredes e portas, atingiam o rosto, braços e pernas, deixavam hematomas roxos e feriam, deixando incisões que faziam o sangue correr. Não tinha mais jeito. Era sempre assim até o dia insuportável que as queixas de vizinhos levaram Gordo Escroto e Puta Doidona para a delegacia e resolveram sair cada um pro seu lado.

Entrementes, eu e Velho Cachaceiro ficávamos sozinhos e esquecidos no apartamento abandonado, que apodrecia aos poucos. O CD da tal música Mahler! Mahler! Mahler! ficava girando enchendo o ambiente com aquela sonoridade triste que fazia Velho Cachaceiro chorar copiosamente e me deixava triste com saudade de minha mãe e irmãos, do sofá que me serviu de morada. Eis porque lamento ter nascido apenas um gato preto.

Nunca pensei que iria me encontrar mais infeliz do que no dia em que o grupo de seis ou sete gatos tirados da mãe, metido dentro de um saco de aniagem cujo destino seria um rio fedorento, a provável morte num canal asqueroso de uma favela. Velho Cachaceiro se esqueceu de cortar o cabelo e de fazer a barba: o café da manhã era uma talagada de bebida, água correndo nas torneiras e Mahler! Mahler! Mahler! tocando, tocando, tocando. Nem um gato preto encontrado num canal de esgoto suporta tanto sofrimento, tanta tortura sonora. Ai saudades dos bailes funk da favela!

Velho Cachaceiro, sentado na cadeira cuja perna quebrada não balançava mais, chorava, chorava falava palavras inaudíveis, nomes de mulher. Repetia Mahler! Mahler! Mahler! Meu amor, meu amor para a vida, para a morte! E então saía apressado, correndo, não sei por que nem para aonde, voltava cada vez mais bêbado ainda e dormia.

Certo dia de domingo, depois de todo esse ritual aloucado ser cumprido e repetido ao extremo mais uma vez e para sempre, quando a casa ficou vazia e só Mahler! Mahler! Mahler! enchia o ambiente de dor, fugia pelas frestas e se perdia no corredor, Velho Cachaceiro solene, em lágrimas, se levantou da cadeira, levantou os braços, atirou os olhos para o alto e se foi correndo aos gritos: meu amor, meu amor para a vida, para a morte! Só que desta vez saiu pela janela, coisa pouco recomendável já que estamos no 6º andar.

Rio de Janeiro, Cachambi, janeiro de 2018

A origem da palavra Forró

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Imagem: forrotradicional.com.br

Forró é festa com baile que se dança ao som de ritmos animados por pequenos conjuntos musicais. A expressão é redução do vocábulo Forrobodó, que Luiz da Câmara Cascudo define no seu Dicionário do Folclore Brasileiro como uma festa popular com música movimentada, dançada em galpões, e que a contração fonética da palavra nasceu naturalmente, dando origem à expressão popular.

O processo de redução de forrobodó para forró é idêntico ao que produziu outras expressões como: apê (apartamento), auto (automóvel), cine (cinema), extra (extraordinário), fone (telefone), foto (fotografia), gel (gelatina), japa (japonês), metrô (metropolitano), mol (molécula), moto (motocicleta), pneu (pneumático), pornô (pornográfico), portuga (português), quilo (quilograma), rebu (rebuliço), refri (refrigerante), tuga (portuga) e tantas outras.

Contudo, a versão anedótica, adotada até mesmo por alguns eruditos espertos, diz que Forró teria se originado da leitura estropiada da expressão inglesa for all, com que os engenheiros ingleses ou oficiais da base aérea norte-americana, avisavam ao povo de que as festas que realizavam eram abertas para todos.

A hipótese é uma bobagem a que alguns artistas sabidos quiseram dar ar de veracidade para promover músicas, shows e ganhar algum dinheiro com a polêmica. Isso porque, o termo Forrobodó já existia no Brasil Colonial, ou seja, muito antes da presença de ingleses e americanos por aqui.

Queriam anglicizar a origem da palavra Forró – como se isso valorizasse o idioma – assim lançaram o factoide de que a expressão vinha da corruptela de for all (para todos).

Essa opinião foi avalizada pelo folclorista pernambucano, Valdemar de Oliveira. Afirma ele que as empresas The Pernambuco Tramways & Power Co. Ltd. e The Great Western of Brazil Railway Co. Ltd. promoviam festas e afixavam avisos que traziam no rodapé a expressão for all – isto é: festa aberta a todos. Posto que se deduz que além de anglicana a expressão nasceu em Pernambuco!

Essa versão engenhosa passou para a história do folclore, como uma pilantragem. Primeiro, foram os engenheiros britânicos instalados em Pernambuco para construir a ferrovia e linhas de bonde, que promoviam bailes abertos ao público, ou seja, for all. Então o termo abrasileirou para Forró. Outra versão da mesma piada substitui ingleses por norte-americanos, Recife por Natal, ferrovias por bases militares. Tudo isso para dar ares de veracidade ao engodo.

A versão mal intencionada e sem sustentação histórica causou reação em todos os níveis: folcloristas e filólogos mais competentes – capitaneados por Luiz da Câmara Cascudo e Ariano Suassuna – trataram de desmontar a farsa em artigos e entrevistas.

Desde 1937 – e também em anos anteriores – tempo que ainda não havia a presença de ingleses ou norte-americanos, a palavra Forró estava presente na gravação fonográfica do disco “Forró na roça”, composto por Manuel Queirós e Xerém. Antes disso, no Rio de Janeiro em 1912, Chiquinha Gonzaga compôs músicas para a peça burlesca “Forrobodó”, de Carlos Bettencourt, que lhe valeu em 1915, o Prêmio Mambembe de Teatro.

As versões mais modernas da origem da palavra forró não são menos fantasiosas. A Wikipédia – que se transformou num octópode da verdade – também discute a informação, com a necessária advertência das falhas na discussão. Lá, diz: “O termo forró, segundo o filólogo pernambucano Evanildo Bechara, é uma redução de forrobodó, que por sua vez é uma variante do antigo vocábulo galego-português forbodó, corruptela do francês faux-bourdon, que teria a conotação de desentoação”.

E mais, que: “O elo semântico entre forbodó e forrobodó tem origem, segundo Fermín Bouza Brey, na região noroeste da Península Ibérica (Galiza e norte de Portugal), onde “a gente dança a golpe de bumbo, com pontos monorrítmicos monótonos desse baile que se chama forbodó”.

Então, forró é “variante do antigo vocábulo galego-português forbodó, corruptela do francês faux-bourdon?” Fala sério, Bechara! Apesar do reforço pelo aporte de Bouza Brey, eminente escritor galego e em que pese as incríveis semelhanças entre o galego, o português e o brasileiro, nos dicionários de Galego que pesquisei – inclusive o Dicionário da Real Academia Galega – nada encontrei a respeito. A resposta das pesquisas a forbodó é sempre a mesma: “Este termo non se encontra no dicionário”.

No dicionário da Real Academia Española, o fato se repete: “La palabra forbodó no está en el Diccionario”. No Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa, idem, idem. Em resumo: essa informação deve passar como mais uma contribuição para o rol das invencionices sem fundamento… E o forró segue.

Ainda assim me dei ao trabalho de fazer um apanhado de expressões dicionarizadas e citadas em obras conhecidas.

Forró e Forrobodó nos dicionários antigos 

1) Vocabulário Pernambucano – Francisco Augusto Pereira da Costa (1916)  

Forrobodó – Divertimento, pagodeira, festança.

“Após a tal sessão houve um grande Forrobodó”. (O Alfinete nº 13-189O).

“Em honra ao sexto aniversário d’A Pimenta houve um espalhafatoso Forrobodó. (A Pimenta-nº 373-1905).

Forrobodó ou forrobodança é um baile mais aristocrático que o Chorão do Rio de Janeiro, [sendo] obrigado a [ter] violão, sanfona, reco-reco e aguardente. Nelle tomam parte indivíduos de baixa esphera social, a ralé…” 

“A sociedade que toma parte no nosso Forrobodó ou forrobodança é mesclada: há de tudo. Várias vezes verificam-se turras ou banzés, sem que haja morte ou ferimentos. Fica sempre tudo muito camarada, muito bem, muito obrigado”. (A Lanceta-nº 121-1913).

Alberto Bessa consigna o vocábulo como brasileiro, com as expressões de baile ordinário, sem etiqueta.

Beaurepaire Rohan dá a expressão como privativa do Rio de Janeiro, junto com as de baile ou sarau chinfrim.

O termo tem curso no Ceará para designar os “bailes da canalha”, como descreve Rodrigues de Carvalho e era comum aqui entre nós, no Rio de Janeiro, desde muito e antes mesmo do aparecimento do livro de Beaurepaire Rohan, em 1889, como se vê destes trechos:

“Um arremedo de folhetim cheirando a Forrobodó. – (America Illustrada nº 25-1882).

“Ao actor Guilherme, na noite do seu Forrobodó. – (O Mephistopheles nº 15-1883).

A expressão, portanto, quer seja originária do Rio de Janeiro, quer de Pernambuco ou do Rio Grande do Norte, já tem entre nós os seus cajus.

2) A Gíria Brasileira – Antenor Nascentes (1953)  

Forró – s.m. Abreviação de Forrobodó 

Forrobodó s.m. Festa animada, com danças, comesainas, bebidas.

“A festa do Bonfim, o Dois de Julho, a noite de São João, os forrobodós”. (Souza Bandeira – “Dois metros e cinco” – A Tribuna 1904).

Nelson de Sena (Revista de Filologia e História nº II-442) menciona um topônimo Forrobodó, “de evidente origem africana” (banto).

3) Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa – Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.  

Forró – (Bras.) (Gíria) – Forma reduzida de Forrobodó 

Forrobodó – s.m. (Bras.) (Gíria) – Festança, baile da ralé em que há grande comezaina; confusão, desordem. Forma red. Forró.

4) Novo Dicionário de Termos e Expressões Populares – Tomé Cabral (1982)  

Forró s.m. Baile plebeu, na zona rural, nos arrabaldes de cidade ou na zona do meretrício.

“Patrão, faz toda a vida que não se entrosa um Forró”. – José Américo de Almeida – A Bagaceira.  

Forrobodó – s.m. (Em desuso). O mesmo que Forró.

“…dancinha de pobre, Forrobodó de bairro”. (Jorge Amado-Dona Flor e seus dois maridos).

“…muitas delas apareciam com vestidos novos para caírem no Forrobodó ordenado pelo chefe”. (Eduardo Barbosa – Lampião).

“A cantilena e o Forrobodó continuavam misturando-se aos fragmentos de sons de concertina, triângulo, pandeiro…” (Orlando Tejo-Zé Limeira, poeta do absurdo).

5) Vocabulário de Termos Populares e Gíria da Paraíba – L. F. R. Clerot (1959)  

Forró – s.m. Baile de gente de baixa condição (também Fuá e Gafieira).

6) Dicionário de Sinônimos e Antônimos – Orlando Mendes de Moraes e Leonam de Azeredo Pena (1954).  

Forró ou Forrobodó – folgança, pagodeira, pândega, balbúrdia, desordem.

7) Dicionário do Folclore Brasileiro – Luís da Câmara Cascudo (1979)  

Forró – Arrasta-pé, bate-chinelo.  

Forrobodó – Divertimento, pagodeira, festança. (Repete todo o verbete de F. A. Pereira da Costa).

Usa-se, em Natal (RN), na imprensa anterior a 1930, como sinônimo de baile popular, pagode, samba movimentado, entre o povo.

Carlos Betencourt e Luís Peixoto escreveram uma revista teatral, “Forrobodó”, que foi muito representada e aplaudida por todo o Brasil (1917-1919).  

Forró, segundo Luís da Câmara Cascudo, vem mesmo de Forrobodó, de raiz banto e significa arrasta-pé, farra, confusão, desordem.

8) O Tapiri – Amazonologia – Fabio Cid (1978)  

Forró – Festança com comilança. Forrobodó.

9) O Calão – Dicionário de Gíria Portuguesa – Eduardo Nobre (1980)  

Forrobodó – Pândega.

10) Calepino Potiguar – Raimundo Nonato (1980)  

Forró – Mesmo que fobó.  

Forrobodó – Arrasta-pé. Levanta-poeira.  

Forrobodó – Arrasta-pé. Baile de pobre.

11) Diccionario Prático Illustrado – Jayme de Seguier (1927)  

Forrobodó – s.m. (bras.) Baile reles.

 

Rio de Janeiro, Cachambi, janeiro de 2018.

 

Um gato chamado NÃO

Le chat noir (Paris)Quando tinha três anos de idade Nininha ganhou um gato. Na verdade não ganhou: seus pais iam doá-lo para a Sociedade Protetora dos Animais, porque não podiam ter o bichano em casa. Quando soube disso Nininha gritou:

– Não!

Ao ouvir o grito o gatinho correu e com um salto ágil se aninhou no colo dela. Ele levantou os olhos agradecidos e sacudiu a cauda para mostrar a ela sua alegria. Assim, o gato não foi doado e ao mesmo tempo ganhou o nome: NÃO.

NÃO chegou da rua sujo e Nininha tinha ouvido dizer que gatos odeiam banho. Mas assim que chegou a hora dela tomar o banho diário NÃO correu para o banheiro. Assim Nininha descobriu que NÃO adorava tomar banho. Em tempo de calor, NÃO se enfiava debaixo das torneiras, dentro do tanque e até no vaso sanitário, o que foi impedido.

Na primeira noite que NÃO foi dormir em seu acolchoado, Nininha deixou a luz acesa. E também cobriu NÃO com uma manta vermelha, para que ele não sentisse frio. No dia seguinte encontrou a luz apagada e a manta caída no chão. Ela não sabia que gato enxerga no escuro: tem visão noturna que vê dez vezes melhor do que ela mesma. E que duas camadas de pêlo protegem os gatos das noites frias…

Nininha ouviu dizer que gato preto dá azar. NÃO é um gato preto, mas na internet ela descobriu que isso é pura lenda. Foi na Idade Média, época da Inquisição, que surgiu o mito de que cruzar com um gato preto na calçada dá azar. Em outros lugares, porém, isso é sinal de muita sorte. Então, Nininha ficou feliz, porque até agora NÃO só tinha trazido sorte para ela.

No veterinário, Nininha quis saber como ensinar NÃO a fazer certas coisas. Sabe-se, porém, que os gatos não podem ser ensinados, mas Nininha nunca acreditou nessa história. Teimosa, ela foi à internet saber como ensinar NÃO a fazer o que ela queria. Descobriu que na Rússia tem um Teatro dos Gatos, com mais de 120 artistas – todos são gatos! Eles fazem acrobacia na corda bamba, equilibram bolas no nariz, dão saltos mortais e agradecem à plateia.

Nininha vai fazer de tudo para transformar NÃO num artista de circo…

– É verdade que os gatos são apegados à casa e não aos donos? Nininha perguntou a seu pai. – É verdade, respondeu ele, os gatos têm um senso territorial muito acentuado. Mas, atenção! Ele também sabe, pelo cheiro, quem trata bem e quem lhe faz brincadeiras maldosas. Muito cuidado com as unhas afiadas dos gatos!

NÃO sofreu muitos acidentes e todos acreditavam que ele tinha sete vidas. Por exemplo: NÃO sempre caía de pé depois das travessuras. Esse é outro mito que foi desfeito com um acidente: certa vez NÃO se machucou seriamente.  A queda foi de grande altura e lá se foi ele de novo ao veterinário. Depois de um mês, a pata traseira enfaixada, muitos gemidos e algumas injeções NÃO ficou bom de novo.

E foi assim que NÃO e Nininha conviveram juntos por quinze anos. Já moça e bonita, Nininha arrumou namorado, foi estudar na faculdade e só encontrava NÃO uma vez ou outra. Ele nunca teve namorada porque foi castrado, agora estava ficando velho e como todos os gatos idosos ficava quieto, preguiçoso – só comia ração forte, mas não tinha como gastar as calorias. Era um gato obeso…

Aos dezoito anos, quando chegava da faculdade, Nininha soube dos pais que NÃO voltou do veterinário com a notícia de que estava morrendo de velhice. A casa estava triste: NÃO estava no acolchoado inerte. Assim que a viu, ele levantou os olhos e, sem forças, mal conseguiu sacudir a cauda para mostrar a Nininha toda sua alegria e reconhecimento. Mas no íntimo queria mesmo era dar saltos alegres e se aninhar no colo dela. Como naquele primeiro dia.

(Imagem: Le chat noir – Paris)

Rio de Janeiro, Cachambi, 31 de outubro de 2017.

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