DIÁRIO DO WORDPRESS

por Salomão Rovedo

Arte é transfiguração

Quando em 1911 Thomas Mann começou a escrever A morte em Veneza e trocou a arte do personagem de compositor para escritor, estava escondendo a comoção que padeceu com a morte recente de Gustav Mahler. O personagem virou escritor, mas manteve o prenome. A história mescla elementos autobiográficos e biográficos com um elemento que perturbava a sociedade da época: o homossexualismo, o sentimento de culpa – heranças freudianas. O cenário: Veneza! A Veneza luminosa, sagrada, Meca da Europa que acolhia todas as nacionalidades. Nas mãos de Luchino Visconti, Gustav – Dirk Bogarde, impecável – volta a ser compositor, o homossexualismo se realiza como paixão, mas a Pandemia de Cólera (que já atingiu o Brasil 7 vezes!) bota tudo por terra. O Diretor italiano presta no filme a maior das homenagens a um item do vestuário indispensável à época: o chapéu. O Festival de Chapéus prevalece em beleza nas mulheres, mas o masculino tem a sua dignidade assegurada.  Obra-Prima do elogiado e premiado Piero Tosi: “Come in una bottega del Rinascimento, il maestro trasmette la propria sapienza artistica alle nuove generazioni. Tra i riconoscimenti 5 Nominations ai Premi Oscar per i Migliori Costumi dei film Il Gattopardo (1964), Morte a Venezia (1972), Ludwig (1974), Il vizietto (1980), La Traviata (1983); 2 BAFTA ai migliori costumi per Morte a Venezia e La Traviata; 3 David di Donatello per La storia vera della signora delle camelie (1981), Storia di una capinera (1994); David del Cinquantenario (2006); 8 Nastri d’Argento per i costumi di altri film capolavori e un Oscar alla Carriera nel 2014”. A música de Mahler eterniza este filme imperdível que já vi e revi, e vi e revi.

Com alunos mexicanos

Querida Docente e Discentes do curso de língua portuguesa, ministrado pela professora Fabíola Pedrero. Hoje, dia 11 de agosto teríamos a primeira reunião em vídeo, mas eu não tinha nada preparado ou escrito para a ocasião. Faço-o agora. Primeiro quero agradecer por estar usando as poesias do meu livro “7 Canções” como base de estudo. Depois, dizer que gostei muito das gravações que a Profª Fabíola (com quem já troquei muitas ideias), enviou com um recado, especialmente da leitura que a aluna Penélope fez do poema “Canção das Dunas Estelares”. Ainda há uma longa estrada a percorrer, mas parabenizo a Profª Fabíola, pela técnica de ensino e as alunas, pela aplicação e vontade de aprender. Aprender uma língua diferente da nossa também deve trazer uma carga de desejo, alegria e prazer. Vocês sentirão como é prazeroso ouvir a língua portuguesa nas ruas, no teatro no cine ou nas conferências e entender, traduzir e decifrar tudo. Conheço um pouco o espanhol e já tive essa experiência. Por isso digo que todas vocês sentirão a mesma alegria e emoção. A emoção, a alegria e o prazer, fazem parte do aprendizado. Existem dificuldades comuns, para o brasileiro que estuda o espanhol e para os espanhóis que querem aprender o brasileiro. O fato que mais traz dificuldades e o sentimento de que são línguas “parecidas”, irmãs, gêmeas. Essa tendência, inevitável, leva a crer que aprenderemos rápido, mas não é assim. Cada aprendizado depende de intensidade e persistência – mas na hora da colheita tudo será alegria. A semântica exige sacrifício – mas isso é matéria para a Profª Fabíola. As maiores dificuldades virão da terminação que acabei de repetir atrás em duas palavras: “ão” – “ãe”, mas pensando bem se trata apenas de uma curva sonora. Pronunciem-nas como se estivessem cantando, com a tonalidade grave, fechada: canção! Tenho uma sugestão: que ao encerrar-se o curso façam a tradução das “7 Canções”, não para o espanhol clássico, mas para o mexicano, nem íntimo, como falado na sua terra. Pensem nisso. Acompanharei com alegria essa prazerosa jornada na qual todas vocês estão empenhadas a cumprir e alcançar o fim. 

Con la simple palabra

José Angel Buesa (Cuba, 1910-1982)

Com la simple palabra de hablar todos los días,
Que es tan noble que nunca llegara a ser vulgar,
Voy diciendo estas cosas que casi no son mías,
Así como las playas casi no son del mar.

Conla simple palabra con que se cuenta un cuento,
Que es la vejez eterna de la eterna niñez,
La ilusión como um árbol que se deshoja al viento,
Muere com la esperanza de nacer otra vez.

Yo com simple palabra te ofrezco lo que ofreces,
Amor que apenas llegas cuando te has ido ya:
Quien perfuma una rosa se equivoca dos veces,
Pues la rosa se seca y el perfume se va.

Com La simple palabra que arde em su próprio fuego,
Siento que en mi es orgullo lo que em otro es desdén:
Las estrellas no existen en las noches del ciego,
Pero, aunque el no lo sepa, lo iluminan también.

Y así como um arroyo que se convierte en río,
Y que en cada cascada se purifica más,
Voy cantando este canto tan ajeno y tan mío,
Com la simple palabra que no muere jamás.

COM A SIMPLES PALAVRA

Com a simples palavra de falar todos os dias,
Que é tão nobre e nunca chegará a ser vulgar,
Vou dizendo coisas que quase não são minhas,
Assim como as praias quase não são do mar.

Com a simples palavra com que se conta o conto,
Que é a velhice eterna da eterna meninice,
A ilusão, como a árvore que desfolha ao vento,
Morre com esperança de nascer outra vez.

Eu com simples palavras ofereço o que ofereces,
Amor que somente chega quando já tiveres ido:
Quem perfuma a rosa se equivoca duas vezes,
Pois a rosa seca e o perfume é consumido.

Com a simples palavra que arde no próprio fogo,
Sinto que em mim orgulho o que noutro é desdém:
As estrelas não existem nas noites de um cego,
Mas, ainda que ele não saiba, o iluminam também.

E assim como um riacho se converte em rio,
E que a cada cascata se purifica mais e mais,
Vou cantando este canto tão alheio e tão meu,
Com a simples palavra que não morre jamais.

(Tradução: Salomão Rovedo)

Falando de xadrez

Caro Leitão. Neste vídeo você diz que não procurou saber por que a “Defesa Escandinava” tem esse nome. Fui atrás e, pelo que li, o nome “Defesa Escandinava” (antes conhecida como “Center Counter Defense”), foi dado devido à intensa utilização em partidas oficiais pelos irmãos suecos Ludvig e Gustav Collijn, jogadores ativos entre os Séculos 19/20. No Campeonato Nórdico de 1897, eles disputaram várias partidas usando a abertura, jogando sempre os lances 1.e4 d5; 2.exd5 Dxd5; 3.Cc3 Dd8, variante pouco usada hoje em dia. Isso mostra que eles estudaram e analisaram a defesa antes de aplicá-la a nível oficial. O GM dinamarquês Bent Larsen (Thisted, 1935-Buenos Aires, 2010), que disputou quatro matches para desafiar o Campeão Mundial, jogou a “Defesa Escandinava” algumas vezes. Com ela Larsen derrotou o então Campeão Mundial Anatoly Karpov no Torneio de Montreal 1979, fazendo-a crescer em popularidade e consolidar o nome “Defesa Escandinava”. O GM Bent Larsen, por sua vez, também criou a Abertura Larsen: 1. b3 hoje quase desconhecida. A pergunta que fica é: será que o GM Rafael Leitão já jogou alguma partida com a Abertura Larsen?

Palestra online

Participando de palestra com alunos mexicanos da língua portuguesa, Rigoberto Rodriguez, Betsabe Hernandez, Penélope Fernandez, Elena Crispin e Beatriz Sanchez, que, com a Orientadora Profª Fabíola Torruco Pedrero, leram poemas do meu livro “Sete Canções”. Devo dizer que a turma não fez feio, nem na dicção, nem nos questionamentos, fugindo do lugar-comum para exigir depoimento concernente ás poesias e ao estudo da língua portuguesa. Apesar de saber que vários países falam o português – inclusive a Pátria-Mãe Portugal – o grupo escolheu o brasileiro para estudo. Acredito que a eleição se deve a muitos e gloriosos motivos, inclusive porque o brasileiro adquiriu liberdade com relação a Portugal, assim como a língua mexicana derivada do espanhol, mesclada a expressões nativas, ganhou status de falar independente. Parabéns à Profª Lola Pedrero e ao animado grupo de “novos brasileiros”.

Meu esporte favorito

Em tempos de pandemia o meu esporte favorito – o Xadrez – foi parar nas telas online. A transmissão das competições internacionais é ótima, mas acaba por se transformar num mar de armadilhas para os comentaristas, geralmente GM ou MI homens e mulheres. O xadrez jogado atualmente não tem nada a ver com o que se ensina e aprende tradicionalmente: as análises ao vivo sofrem com isso. Comentaristas mexem as peças pra lá e pra cá, sugerem lances, supõem alternativas, mas o que acontece no tabuleiro passa longe da realidade. É um xadrez fantástico, de partidas jogadas à Velocidade da Luz, nas quais prevalece a criatividade, a visão panorâmica, onde o raciocínio rápido, ágil e lógico se impõe. Relâmpagos, tsunamis, furacões, perpassam sobre o tabuleiro devastando tudo. Até a máquina de análise mais rápida do mundo – Stockfish – age como louca desvairada, mudando a cada lance a avaliação da partida. Nossos meninos e meninas estão bem, mas às vezes é melhor sair pela tangente e passar receita de bolo ou falar do churrasco. Os GM Rafael Leitão e Felipe El Debs observam de longe: Leitão repassa análises de partidas e aprofunda estudos, enquanto El Debs percorre o caminho da História do Xadrez com conversas inteligentes e análise das partidas preferidas dos entrevistados. Tenho o privilégio de envelhecer de olhos bem abertos para todas as maravilhas, inclusive desse xadrez atômico que se reinventa a cada instante. Parabéns aos nossos e nossas comentaristas que não deixam a bola cair.

Revendo um retrato

Estávamos, eu e o mano João Bala, bebendo um vinho branco geladinho num lugar de São Luís onde tinha só areia, o mar e a choupana de taipa de Mãe Joana, construída debaixo do manguezal. João me apresentou e cumprimentou: Como vai Mãe Joana? Tudo bem, seu João. E o velho Tadeu? Tá no mar pescando faz 15 dias. Mãe Joana tinha idade, mas ainda pitava charutinhos e bebia cachaça antes do peixe frito. A pele estava plissada pelo tempo, os cabelos pareciam chumaços de algodão. Êi João, eu disse, um charutinho até que ia bem com o vinho, né? Mal entramos na choupana para filar o charuto de Mãe Joana começou a chover. É um tipo de chuva que só dá em São Luís. Belém tem sua chuva. Manaus tem sua chuva. Teresina, Palmas e Fortaleza tem só vapor. Mas nada se iguala à chuva de São Luís. Se achegue, seu João, seu Salomão, olha a chuva! Era Mãe Joana que oferecia abrigo na varanda coberta de palha. Aceita um charutinho, meu fio? Claro, disse João. Traga também um copo pra senhora beber que o vinho tá é bom. Mãe Joana trouxe dois charutos mal feitos, nem podia dizer que foram enrolados na coxa enrugada de Mãe Joana, mas foram feitos à mão. João serviu fartamente a caneca de alumínio que Mãe Joana trouxe. Entre pitada e outra, ao som da música que só a chuva de São Luís entoa, Mãe Joana contava: Sabe seu João, a chuva quando ainda tá lá em cima é silenciosa como o céu. Depois os pingos começam a brigar um com outro aí faz aquele chiado que pode ser forte ou fraco. Aí a chuva bate nas folhas e nos galhos e – ouça bem… Tá ouvindo? – aí já é música pura, que deixa os passarinhos, os bichos de árvore, alegres. Mas nenhum barulho da chuva é igual ao que ouço quando bate nas folhas de embira que cobrem minha casa e corre para o chão. Parece cantiga de fazer neném dormir. São as melhores noites seu Salomão, seu João, pode crê! Mãe Joana deu um riso safado. É que a rede não fala! Mãe Joana sorria velhaca: O velho Tadeu que o diga! O velho Tadeu que o diga! E deu a gargalhada mais bonita e assombrosa que São Luís já ouviu. Rio de Janeiro, Cachambi, agosto/setembro de 2020. Salomão Rovedo